
Novembro tinha chegado e com ele a vontade de acender a lareira.
Riscou num fósforo comprido o desejo que o calor lhe inundasse a sala, iluminado pelas velas de tons quentes, subtilmente perfumados.
Envolveu as mãos na chávena de chá roubando-lhe num afago o calor apetecido.
Escorregou-se pelas almofadas a moldarem-se ao corpo numa empatia que sabia de cor.
E o ar invejoso a querer roubar-lhe o momento no evaporar do chá, que gostava quente e fumegante.
Os últimos dias foram como se tinha habituado no último ano, depois do divórcio legítimo, de duas décadas avarentas de sorriso, mais sofridos que o desejo da vontade. Roubou uma pausa ao tempo. O mar chamou-a e sempre obediente aos impulsos inquestionáveis, rumou a sul para a casa da praia. Uma sobra de passado que agora estava pela primeira vez a sentir sua, naquela chávena de chá, bebido na tranquilidade de um fogo aceso e velas, muitas velas de cheiro que só ela decidiu escolher.
Passeou os olhos por todos os detalhes daquela divisão, a sua preferida, relembrando o momento em que decorou cada pormenor. Sentia-se de novo ali noutro fragmento de espaço agora só seu. Provou sorrisos de memória e reflexão com todas as cores que o expectro lhe oferecia.
O passeio pelo tempo convidou o sono a entrar, devagarinho.
Acordou algumas horas depois com um abrir de olhos preguiçoso a provocar outro sorriso, este, triunfante. Um sonho dentro do sonho. Estava mesmo onde há muito precisava de estar. Consigo própria num lugar só seu.
A chuva tinha-a acordado, na lareira umas brasas tímidas pediam ajuda e eternidade, em sintonia com algumas velas. Levantou-se num pulo decidido a apetecer-lhe o sabor e cheiro de scones. E foi para a cozinha confeccionar o desejo.
Orgulhosa de outro momento só seu, levou um tabuleiro repleto de scones, compotas, chocolate quente e frutos secos para o alpendre. Pôs um gorro na cabeça, forrou a cadeira de bambu com um cobertor macio e enrolou-se nele deliciando-se com o lanche enquanto a chuva caía cada vez mais forte, invejosa daquele momento suculento.
Iria ficar por ali desafiando o tempo, sem pressa de voltar.
Ida de regressos
Chuva nova

Depois da borrasca de ontem as gotas tímidas desta manhã trouxeram-me nova "Utopia", disponível no aleatório. Um muster clip, muito mas muito bem produzido. Bato palminhas de pé ao video, à letra, à musica, ás vozes, ao arranjo... and so on.
Modo de usar: sem moderação mas tornando o momento utópicamente único carregando no link do título do post.
Lu de Lua
Esquecidas no fundo de um disco empoeirado debaixo de papeis que "um dia destes arquivo" reencontrei este mote das três primeiras linhas que me sugeriram o prolongamento nessa altura. A data é desimportante mas a Lua faseou-se mais de 30 vezes desde então. Soprei-lhe o pó com empenho e aí está ela de novo...actual. Abraçuuuu "brilhante" de Lu(a).
“Tenho fases como a Lua
Fases de andar escondida
Fases de vir para a rua”
De me ver em ti perdida
Redonda como um olhar
Brilhante em outro ser
Segura iluminando o mar
Sensual vontade do querer
Tem o outro lado da Lua
Outro Eu meu que me agrada
Quando sinto numa fase dela
Aquele brilhar vindo do nada
De ti quero sempre ter
Tudo que me quiseres dar
Passar depressa o não te ver
E desejar-te no voltar
Vem assim minha Lua
Quando iluminada sorris
Nas noites que te trazes nua
Iluminando-me perfis
"The Pursuit" - Jamie Cullum
Jamie com novo trabalho, "The Pursuit". Jazz, com muito experimentalismo sampler, salpicado com alguns ingredientes "coverizados" como o "Just one of those things" de Cole Porter ou este " Don't Stop The Music" de Rihanna com dedinho do rei da pop.
Músicos novos, também na idade. Não desgostei do CD, ao ouvir pela primeira vez... Vou ouvir a segunda ;).
"The (Right) Fall"
Ela "caíu" para um novo estilo... a voz continua planante e suave num experimentalismo variado, quase naif, pelas sonoridades globais. Gosteiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii e volto a ouvir... Esta e agora todas as outras com o CD fisicamente presente. "Quedo-me" ouvinte fiel.
Wither
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"Open up open up
Don't struggle to relate
Lure it out
Help the memory escape
Still transparantness consumes me
And I feel like giving up"
Noites Lisboetas

Combinaram por telefone encontrar-se à porta dela. Um prédio pombalino com degraus de madeira restaurada, imaculadamente encerados. O corrimão em ferro forjado envernizado a mate incolor amparava-lhe o descer quando usava os compensados que lhe acrescentavam o resto da altura para o beijo equilibrado.
Ele chegou primeiro, como acontecia sempre. Pressionou o botão retro e polido da campainha…ela desceu. Ouvia-lhe os passos lentos compassados e seguros desde o bater da porta de quinto andar. A escada ecoava-lhe o chegar de forma apetecível e desejada de os ver de novo após tão grande ausência.
Ela tinha estado fora a preparar a colecção de inverno, em Milão. Ele de novo em missão no Iraque para um canal de informação inglês.
Há três meses que não se viam a não ser por vídeoconferência.
Ela pisava o último lance de escadas que ele conhecia de cor. Abriu a porta e ficou a olhá-la naquele descer. Nos últimos degraus deixaram olhos fixos um no outro enquanto os passos dela os aproximavam. Ambos esticaram os braços lentamente encaixando-se num gesto impetuoso. Depois num beijo leve de lábios.
Para não quebrarem a vontade de se sentirem juntos de novo, combinaram no inicio da relação, não falarem de nada durante o reencontro após uma ausência prolongada.
Conheciam o gosto de ambos em todos os cenários vividos.
A “Brasserie” da Alecrim era um dos restaurantes preferidos, calmo àquela hora a que costumavam jantar fora e tão próximo de casa dela. Onde quase sempre terminavam a noite.
Ele pediu bem passado, ela um seitan e espumante rosé para acompanhar. Ele um Romeira tinto. Continuaram a olhar-se alheios a tudo, revendo-se no desejo já vivido de voltarem a tocar-se ali por debaixo da mesa coberta com uma toalha branca a transbordar pano e margem de segurança ética.
Ela num vestido novo, largo e vermelho, escorrendo leve e amarrotado quase até aos joelhos, decotado a insinuar-lhe o peito.
Começaram pela salada de odor intenso a vinagrete, polvilhada com frutos secos. Ela, num movimento denunciado, continuava a olhá-lo. Era o convite para que ele, já descalço, posicionasse o pé no meio das pernas dela. O movimento lento ao tocá-la… provocou-lhe em menos de um minuto a intensidade suficiente para que os olhos denunciassem sem pestanejar aquele primeiro orgasmo para ele. Sempre de olhos fixos e mudos de palavras. brindaram ao primeiro dessa noite, esvaziando os copos num único gesto até à derradeira gota. com a mesma vontade e empenho que tinham sentido momentos antes.
Durante o resto do jantar permaneceram calados a invadir-se com o olhar. num jogo grandiosamente dominado por ambos.
Outro ritual fazia parte daquele reencontro. O ultimo copo era bebido, como o primeiro, de uma só vez.
Saíram do restaurante, trocando as mãos na cintura. Quando ela punha sapatos mais altos ele adorava colar-se, para lhe sentir ainda melhor o andar.
Perto da casa dela e já no regresso um concerto clássico de rua juntava várias centenas de pessoas. Encontraram um encosto de parede disponível ao fundo da plateia entre duas colunas das arcadas de uma loja.
O concerto recomeçou, ela fechou o olhos e deixou-se recuar até mais perto dele que de tão perto, lhe sentia o respirar na sua nuca. Um sopro de vento frio mas suave fez aninhar-se ainda mais.
A musica invadia toda a praça em crescendo... como ela, abraçando-o até onde a mãos chegavam. Sentiu as dele responderem a essa provocação tacteante.
Os bolsos do vestido não tinham fundo propositadamente. E ele sorriu ao sentir-lhe a pele convidativa das ancas na ponta dos seus dedos. Das contracções de ventre dela a cada poro estimulado.
Uma mulher ali mesmo ao lado apercebeu-se e olhou-a com um sorriso cúmplice.Ela voltou a fechar os olhos até se perder demorada e expectante na intensidade do próximo. Recostou a nuca no ombro dele e deixou-se levar pelo contraste daqueles dedos que sabia de cor, em crescendo até à apoteose do “coroado” estimulo final , de Mussorgsky, coro e sinos em sintonia com o que lhe vinha de dentro. Durou o tempo das palmas de toda a plateia que lhe abafaram o sussurro descontrolado.
Ficaram ambos na mesma posição até todos saírem da praça...sobravam ecos de concerto naquele desconcertante reencontro há muito desejado. A noite estava a começar...
Comfortably Numb
Os lábios dançam... envolvendo em pétalas de silêncio a tonalidade alaranjada de outro ocaso de Tejo...saboreando-a, num sorriso "confortavelmente entorpecido"
reFLEXOS

As margens calam o silêncio barulhento das rochas
Os pássaros abandonam o voo
O oceano perde-se em marés
O sol mentiu... fingindo-se lua.
...e nessa quase noite... só os reflexos foram reais.
Passeio molhado
A chuva caía apressada, barulhenta, com vontade de vingança pelo bom tempo anterior. A iluminação da esquina firme e empenhada no seu papel de iluminar, mesmo quando a rua fica cheia de ninguém... ou quase.
Acordei pela violência com que a água batia na minha janela e pela fresta permeável a provocar pingos no alumínio. Fechei-a e vi-a caminhar junto à parede, indiferente ao tempo molhadamente chuvoso. Trazia o olhar no chão e os braços cruzados como a proteger-se da água que lhe invadia a roupa e todo o corpo.
Ao passar por baixo de um abrigo de prédio sentou-se no chão, encostou a cabeça à parede e abraçou os joelhos a olhar para a esquina oposta. Depois deixou cair a cabeça nos joelhos e ficou assim...
A chuva abrandou passados alguns minutos e um chá que bebi.
Voltei à janela e ouvi-a soluçar ainda na mesma posição anterior, ao mesmo tempo que batia com a ponta dos pés na calçada.
Um carro parou no semáforo. Lá dentro a música mostrava-se barulhenta e com graves a saltar por tudo o que era poro de chapa. Um dos ocupantes abriu a janela e meteu-se com ela. Ela indiferente nem se mexeu. Com insistência o ocupante chamou-a e ela olhou. Fez-lhe sinal de quem queria um cigarro. A porta abriu-se e o ocupante de boné preto, roupa sequinha, vai até perto dela com o braço esticado e na ponta dos dedos um maço de tabaco. Ela tira um cigarro e ele baixa-se para o acender.
Trocam algumas palavras e ela diz que não com a cabeça. Ele permanece perto dela e continua a falar-lhe. Ela risse, de forma audível, enquanto escorre o cabelo para o chão. O outro ocupante do carro sai também e chama o primeiro. E ambos entram no carro, que desaparece com ruído de pneus no chão molhado.
Ela encosta de novo a cabeça à parede, deita as pernas no chão e desfruta daquele cigarro até ao fim, demoradamente. No final, fazendo dos dedos fisga,lança a beata para o riacho no alcatrão. Levanta-se, espreguiça-se e abana a cabeça para a desencharcar. Olha o céu, confiante, retoma outro caminho, por vezes aos saltinhos e dedos a roçar a parede.
Caminhou à chuva, abraçou-se, chorou, fumou um cigarro cravado, a chuva conteve-se e trouxe-lhe de novo o sorriso, saltitante, rua abaixo.
17 de Setembro...de outro milénio
Entrou pelo quarto durante o toque das cinco, na sirene da fábrica.
Abriu ainda mais os olhos azuis como puxando a vontade de encontrar, no meio do caos, de roupas e adereços de uma vida de palcos, o que se tinha esquecido. Adiantou-se no ímpeto de achar a qualquer preço naquele canto da memória, o que o passado a fez recordar.
Revolveu gavetas e todos os cantos daquele aparador feito cómoda de avó, caixas de sapatos aconchegadas em pó de momentos esquecidos debaixo daquela cama barulhenta.
Subir ao mais alto que os pés podiam, naquela cadeira em que adorava perder-se em momentos sós . Mas o cimo do roupeiro tinha restos de tudo menos do que procurava.
Meia hora de busca desvairada, e encontrou-a finalmente, entre a cabeceira da cama e a parede, no meio de beatas, fotos rasgadas, preservativos ressequidos e uma caixa de goronzan, num gesto de desespero, quase a abrir a represa do descontrole, salgado a negro sombra.
Despiu-se. Apanhou o cabelo. Encheu a banheira. Acendeu uma vela vermelha de cheiro a morango. Abraçou o cinto ao braço direito. Esperou que a espuma eterna na colher abafasse aquela última tarde fria de Outubro...calando aquele último gesto, o fechar azul dos olhos, tantas vezes vivos na eterna vontade de o ser...
Caminhos...(2)

Olhou para a esquerda e direita quatro vezes. Atravessou apressada na passadeira como se o tempo lhe fosse curto na caminhada diária até ao outro lado da cidade.
O tempo aconteceu, por vezes mais apressado, de outras pachorrento e preguiçoso sem a vontade a arrancar-lhe outra folha de calendário.
E hoje voltei a vê-la. Os dias de eleições são sempre cheios de sorrisos.
A rua deixa-se quieta e introspectiva. Parece que os votantes caminham com mais leveza pela calçada...respeito cívico?...talvez nem tanto...apenas, porque sim.
Estava dentro do carro e vejo-a de mochila preta presa aos ombros e chinelas de praia, a subir aquela rua de Santos...confirmei com um olhar mais atento. Era mesmo ela.
Há meses que não a via. O seu ar despreocupado levou-a para o meio da estrada por onde caminhava, até uma buzina , a ter desviado num saltinho para o passeio.
Tive vontade de lhe perguntar porque deixou de aparecer aleatoriamente com uma frequência indisciplinada mais regular.
Já tinha saudades do sorriso que me provocava, ao vê-la quedar-se em frente aos restaurantes, ler a ementa e seguir até ao próximo como se nenhuma delas lhe agradasse. E correr assim todos os cantos gastronómicos.
Lá vai ela, com passo ligeiro, rua acima e destino secreto, até à próxima vontade em que o acaso nos voltará a cruzar de novo.
Chocolate de Outono

O roupeiro devolveu-me aquele aconchego turco quentinho com capuz preto, ainda meio tonto do seu hibernar.
Elas caíam... naquele suave cair, em despedida saudosa. E ela, imóvel sem gestos de ramos, a deixar sensualmente despir-se, para me deixar, um destes dias, o campo livre até ao fim da rua.
Ficam os aplausos quando lhe pisamos as folhas, naquele devolver ao chão o que ele lhe deu. Fico a vê-las ...cair.
O chocolate está no ponto e saborosamente bebível. Denunciado pelo odor que me chegou à janela do quarto salpicada pela primeira chuva de Outubro, que acelera o passo de quem foge à chuva com destino marcado e impaciente.
Mas qual "...outra primavera..." senhor "Alberto" (Camus)? Outono é Outono, com infinitos castanhos e folhas salpicadas de chuva a provocar o escuro das roupinhas de Inverno e sonos mais preguiçosos ao levantar.
Apetece-me chuva e cheiro de folhas caídas, com um chocolate quente.
Ruas

A noite despertou-me, baixinho, a vontade, para um passeio a pé pela parte velha . O silêncio, os odores nocturnos, a luz fraca das réplicas de lampiões antigos...
A minha cidade voltou a despir-se de sol e mostrou-se como a recordar-me que a tinha quase esquecido.
Abrandei a caminhada e deixei o tempo ultrapassar o passo. Um gato preto ficou imóvel a seguir-me, com um olhar vadio e terno. A torre da câmara já não dá horas. Uma mulher estende roupa numa corda folgada salpicando-me com o cheiro a lavado modesto. A taberna fechada há muitos anos traria agora aquele odor a esquecimento graduado, bebido em copos semilavados enquanto a sueca seria a única mostra de mulher presente, tocada por mãos calejadas e unhas encarvoadas. Mas a porta estava fechada e selada ao pó no lixo do esquecimento.
A serração e a fábrica de pedra tiveram o mesmo destino.
Apeteceu-me a calçada antiga e nunca renovada... voltei a passar por ela na única passagem entre prédios que conheço, que de tão estreita, é preciso roçar paredes para atingir o outro lado.
A ida terminou frente ao Tejo no ponto mais alto e possível desta latitude.
O vento veio, os sons da ponte também. Empenhei-me no voltar devagarinho, pelo mesmo itenerário de ida, para rever tudo uma outra vez.
Uma lâmpada indecisa agradeceu-me num sorriso a visita naquele seu piscar cambaleante de fim de vida.
Do not disturb

- 2º andar!... 2º... 2º.... segundo andar.
Ao fim de alguns segundos o elevador resolveu obedecer ao meu indicador esquerdo. Cheguei a pensar naquele compasso de espera claustrofóbico, se Otis seria além de místico, também reaccionário.
Abri a porta do hall do meu piso da residencial e mesmo ali num momento surrealista, estava uma nórdica bronzeada em formato dégradé de branco a vermelho quase bife, apenas com uma tanga preta como adereço e perto da histeria, a vingar com a mão, as orelinhas, sem motivo aparente, na porta do meu quarto.
Ao ouvir-me entrar contraiu-se num gesto defensivo subtil e recuante, ao olhar-me, enquanto me dirigia para a porta agredida.
Percebi o motivo… E apontei com o indicador direito ( não fosse o seu apelido também Otis e provocar demora na reflexão) para outra porta ao fundo do corredor de onde provinha o testemunho sugestivo de “sex loud and clear”.
Pediu-me desculpa em jeito de vénia desnudada, retirando-se em recuo, sem se importar, ou por esquecimento, de ir repetir a vingança na porta certa.
Fiquei a saber que o gesto de apelidar a loucura com qualquer um dos indicadores disponíveis em círculos junto á cabecinha loira era internacional… tendo desaparecido no escuro do quarto vizinho.
O meu sono foi contrariado também pela agitação do quarto suspeito que se ouvia na porta da rua.
Algo me motivou algum orgulho na minha portugalidade.
Os direitos de autor da minha vizinha do quarto ao fundo eram Made in Portugal.
E os auges sucediam-se sempre no feminino…pelo menos os que a partir de um numero sem conta, largamente superior a sete, me começou a despertar a curiosidade matemática.
Sem contar múltiplos e a cadência estonteante testemunhada ao segundo em jeito de relato pela interveniente, com uma precisão estonteante…a noite prometia. Mas apenas por lá. Os vizinhos que se lixem com um F despreconceituado.
Farto de contar os orgasmorelatos da vizinha, e porque comecei a duvidar que o quarto fosse ocupado por mais alguém a menos que o segundo ocupante fosse mudo, decidi olhar para o relógio. Cinquenta minutos desde a minha chegada a uma cadência quase suíça.
A minha última teoria foi mesmo a de pensar que era um novíssimo modelo importado de alarme em teste anti-roubo. Mas rapidamente abandonei a ideia.
Em jeito de final de fogo de artificio o último sinal apoteótico sugeria o regresso à normalidade decibélica, mais agora deci que bélica, confirmada logo a seguir pelo ruído mais contido e discreto da água corrente no chuveirinho.
Já há uns anos que não vinha ao Algarve, provavelmente a nórdica nunca cá tinha estado…
Seria o propósito de me bater à porta ter a ver com o incomodo pelo barulho do quarto do fundo???
Assim como assim…preferi a última e prometedora letra do abcedário.
Barbearias

Lembro-me daquela barbearia de luzes amareladamente tingidas pelas lacas e elixires de cheiros sublimes e só para homens de barba rija- dizia-me de passagem quem me levava pela mão. Ficava fascinado ao passar por lá nas tardes de inverno quando as luzes de mercúrio dos candeeiros de rua, já acesas, invejavam aquela tonalidade quente. Lá dentro liam-se jornais que “moteavam” a conversa a cada dia, com um rádio de pilhas com as vozes monocórdicas e as músicas da Emissora Nacional naquele baixinho que só se ouvia nos momentos de silêncio por entre o abrir e fechar das tesouras e do bombear de spray lacado.
Na parede espelhada, sempre um calendário de pin-up em topless com uma flor ou um laçinho a dar côr e candura àquele monumento anual que os meses iam também amarelando.
Por vezes, um engraxador com perna de pau, que me deliciava o olhar pela agilidade do escovar em dueto de mãos e tirando sons chicoteados do pano, ao polir cada sapato.
Mas o meu barbeiro nunca foi ali, naquele manancial desejado de rua direita. Pela mão levavam-me a outro ali perto. Sentavam-me numa cadeira alta com uma almofada de cabedal vermelho para me tonrar crescido e confortável para os rins do Sr. Favinhas, que não tinha calendário de menina nua no espelho nem luzes amarelas. Só das flourescentes e frias que iluminavam o corte por vezes contrariado em arrepio de pente e tesoura, desobediente ao olhar de um pastor alemão de calendário.
E essa memória esqueceu-se no tempo até há poucos anos em que me tornei cliente da primeira num acaso de passar por lá.
O aprendiz tornou-se patrão e o outro empregado continua empregado. Desimporta-me qual deles está disponivel para o corte.
Mas da última vez foi a cadeira do empregado que utilizei.
As luzes tornaram-se brancas com o tempo e as obras de restauro davam ainda cheiro novo. O que restou foi apenas o espelho no mesmo sitío do anterio a ocupar toda a parede frente às cadeiras dferentes da referência primeira e a pin-up agora sem laço, flor ou mesmo a parte de baixo do biquini e fotografada em pose provocante a que hoje nenhum dos miúdos que passam na rua ligarão.
O rádio já não era de pilhas, os jornais multiplicaram-se nas cadeiras de espera. Tema do dia: futebol...selecção.
Apenas perguntei qual tinha sido o resultado...Erro crasso no mote escolhido.
O empregado que tinha começado o corte a pente 4 entusiasmado com o seu protesto aos árbitros ao treinador, ao presidente da federação e até possívelmente ao cortador de relva do estádio não parou de me bombardear com gafanhotos que me atingiram em toda a zona do couro cabeludo ou do que resta dela. O pano creme que me envolvia protegendo-me dos inofenssivos cabelinhos caídos foi incapaz de ficar com uma área menos salpicada com cada perdigoto lançado por aquela criatura fora de si.
Percebi que futebol não seria definitivamente um bom tema para conversa com empregado de quem apenas tinha um reparo anterior.
O facto de se encostar demasiado aos braços dos clientes durante cada prestação. Pedi reforço no elixir pós corte. A intensidade de alcool deveria desmicróbiar tudo.
Levantei-me e deixei por herança momentanea o lugar na cadeira do empregado, a um cliente novo, seco e acabadinho de chegar:
- Tás bom Manel? Viste o jogo?
E ainda consegui sair dali antes do Manel responder
Holandês Vicentino

O Sol nascia preguiçoso por detrás do pinhal desordenado da costa alentejana com o Mira a rasgar-lhe a praia.
A humidade nocturna a desvanecer-se no ar e na areia. As primeiras pegadas, dos veraneantes madrugadores, até ao espaço ocupado de costas para o mar.
Gosto da vista do cimo da falésia e da areia, que a geada molhou, a colar-se-me aos pés.
A água a esverdiar-se a cada novo grau de nascente. Aqueles odores de manhã que nenhuma parede de cimento cheirou.
O silêncio, de ondas suaves empurrando pedrinhas de beira-mar e areia, de aves marítimas, de canaviais vizinhos, de… outros silêncios ouvidos.
Depois da última duna… o mar perdeu o interesse do olhar primeiro, fugindo para o fundo do areal. Na irregularidade da pequena falésia amostras de cascatas sazonais desenhavam cursos de flora a cada descer. Sem vestígios de pegadas, sem lixo perdido, sem traços recentes de espaço ocupado…como se aquele estacionamento imprevisto lhe fora destinado por Nemo.
Aproximei-me, descendo por um carreiro de areia, estreito e esquecido, entre sebes e rochas. E ele ali, roubado ao mar… ou trazido durante a borrasca para um pedestal arenoso. Pintado a ferrugem pelas demãos dos anos. E do tempo que lhe roubou a alma de cores e memória mareante. Desistiu do oceano, ao astear o hélice na areia à espera que a última onda de inverno o misturasse com a desvontade de se sentir vivo...
Era um rebocador holandês, contou-me um pescador da praia seguinte: “Foi aí por 96. O mar partia muito”.
A máquina parou e o vento noroeste acabou por empurrá-lo para a costa rochosa e traiçoeira.
Os quatro tripulantes foram salvos. Ele não…
Fui...mas acho que volto, noutra incerteza do tempo

O pano subiu... As férias começaram a ritmo de primeiro acto.
Alentejo que desejo poiso, noutro meu ficar.
Navio náufrago vicentinamente cativo.
Lagos em acto segundo, de praias tímidas por descobrir.
Chinelo de praia caído numa rotunda sentindo-se pisado por outros pisos de borracha.
Ruídos de boca a suarem desejos no quarto ao lado.
E o acto terceiro quase a chegar, para na apoteose da peça voltar a fechar o pano até outros sinais audíveis de Molière.
Em Almadéna, a sul, o sol esconde-se por detrás da terra...
Ventos

Sexta-feira quase a morrer no calendário. Degraus servem de banco. Poste, parede e corrimão dão encosto a quem o tempo vai tirando o equilíbrio. No meio de risos, olhares, seduções, vozes em uníssono ou um duo de trovadores de fim de semana, lá do alto Camões vê o chão pegajoso de muita cerveja entornada e outros usos de noite lisboeta. Os carros passam iluminados de som, os passeios usam-se pelos saltos altos pintados de noite. Este canto alto da cidade padece de insónias e overdose de gente.
No quiosque dos sóbrios, mesmo ali ao lado também ninguém se importa com as folhas de jornal que o vento traz. Ficam restos de capilés, groselhas e licores em copos bebidos e esquecidos que a chuva miúda ajuda a borrifar.
Agora em sopro de tímido, uma folha de jornal esvoaça para uma grelha de pulmão de estacionamento: “MORREU O REI DA POP”.
Sabendo que só eu e ele tínhamos reparado no surrealismo do cenário... piscou-me o olho possível de piscar e do alto daquela praça sua, sussurrou às musas, olhando o Tejo, em jeito propemptikoniano.
“Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração.
Mísera sorte, estranha condição”

