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A noite despertou-me, baixinho, a vontade, para um passeio a pé pela parte velha . O silêncio, os odores nocturnos, a luz fraca das réplicas de lampiões antigos...
A minha cidade voltou a despir-se de sol e mostrou-se como a recordar-me que a tinha quase esquecido.
Abrandei a caminhada e deixei o tempo ultrapassar o passo. Um gato preto ficou imóvel a seguir-me, com um olhar vadio e terno. A torre da câmara já não dá horas. Uma mulher estende roupa numa corda folgada salpicando-me com o cheiro a lavado modesto. A taberna fechada há muitos anos traria agora aquele odor a esquecimento graduado, bebido em copos semilavados enquanto a sueca seria a única mostra de mulher presente, tocada por mãos calejadas e unhas encarvoadas. Mas a porta estava fechada e selada ao pó no lixo do esquecimento.
A serração e a fábrica de pedra tiveram o mesmo destino.
Apeteceu-me a calçada antiga e nunca renovada... voltei a passar por ela na única passagem entre prédios que conheço, que de tão estreita, é preciso roçar paredes para atingir o outro lado.
A ida terminou frente ao Tejo no ponto mais alto e possível desta latitude.
O vento veio, os sons da ponte também. Empenhei-me no voltar devagarinho, pelo mesmo itenerário de ida, para rever tudo uma outra vez.
Uma lâmpada indecisa agradeceu-me num sorriso a visita naquele seu piscar cambaleante de fim de vida.

2 comentários:

Azul disse...

Dizer que gosto de o ler é algo desnecessário e, porventura, desapropriado uma vez que, bom seria poder transportar até si, pelo dedilhar do teclado em que escrevo, o arrepio que me promove onde o recebo. Gosto das sensações que perpassam na sua escrita, do uso tão maleável e escorreito que faz desses recursos de escrita, que tornam os seus textos coisas apetecíveis.

Apeteceu-me pedir-lhe que, da próxima vez que quiser deambular noite fora, ao sabor do luar, me leve junto. Eu garanto que farei como o gato preto: segui-lo-ei apenas, simplesmente, sentindo o calor dos seus mágicos passos!
(perdoe-me o atrevimento, sim?!)

abraço. até breve. AZul.

Isabel disse...

Pronto, não consegui resistir sem vir aqui deixar um comentário...
Esta tua "crónica" levou-me a Almada dos meus tempos de Liceu, das festas a meio da tarde em casa da avó do Janeka, num 1º andar junto à antiga CMA (ah que saudades dos meus 15 anos...), dos "amassos" no Miradouro com o Tejo como testemunha...
Já me tinhas levado a esta espécie de "terapia de regressão" com Barbearias. Mas aí, embora as memórias sejam outras, a barbearia poderia ser a mesma - a barbearia do Sr. Dias, onde ia com o meu pai cortar o cabelo, ao contrário das outras meninas da minha idade que iam com as mães à cabeleireira ou faziam tranças...
Fico-te grata. É um prazer ler-te.
Ah... é verdade: gostei de te ver! O amor fica-te bem...
Bjs