Planície
Quero um dia despedir-me da cidade num breve, até já, que vou procurar um canto rústico e alpendrado que se demarque em altura do resto da planície, com vista para o pôr do sol.
Desinquietante
Descobri hoje que tenho outro heterónimo. Este, acordou-me a meio da noite... beliscou-me tanto e com tanta violência, que acordei com o ombro direito assimétrico do outro. Disse-me que se assumia como heterónimo de personalidade própria e contou-me da sua soberania sobre mim, em sonhos ou acordado. Contou-me ter a "Chave Dimensional", mas para nunca me convencer que de alguma forma o conseguiria mudar. Teria que aceitar como verdade irracional e só desta forma, banalizando a utópica e redutora premissa das quatro verdades. Para ele, a filosofia, epistemologia,lógica e a metafísica são apenas uma percepção básica das impressões sensoriais. Pensei na hipótese da loucura a invadir-me, mas tranquilizou-me com um afago no ombro esquerdo apesar de ter preferido no outro, barbaramente beliscado. Quis provar-me que se escolhe heterónimo onde quer e assumir qualquer forma. Uma delas a mão que segurava o pé esquerdo no "Sonho Causado Pelo Voo de uma Abelha ao Redor de Uma Romã um Segundo Antes de Acordar" e que Dali, que era sonâmbulo, conseguiu contrariar. Por isso no esboço inicial a mulher tem a perna esquerda esticada e a mão aparece a tocá-la.
Perguntou-me se era sonâmbulo e decidiu ficar.
A semana começa bem...e o meu ombro sem vestígios visíveis de beliscos...mas ainda dorido ao segundo acordar.
Temo o pior...
Equilíbrio ébrio
Quando se conduz, melhor dizendo quando conduzo, só os olhos e as mãos me conduzem. Desentendi-me desde cedo, creio mesmo que ainda na idade "90", no meu "dentro filosófico" com quem não sente a estrada a ponto de deixar a rota pneumática, sair do eixo ideal, corrigindo-a em golpes quase marciais. E gosto que me conduzam se sinto reciproco nesse estado... e a expressão provoca-me abrandar... sem stop obrigatório... a não ser o de me dar conta talvez do sinal acomodante, de primeiro sintoma conformista, notado, o primeiro passo testemunha, de condutor a caminho de pendura.
Começo a gostar a cada dia de me sentir conduzido, de me sentar do lado direito e de forma egoísta mas assumida me deixar levar por cada múltiplo momento preliminar em filme de viagem, seja perto, ou no longe quilométrico.
De "costas" para o Majestic
Sempre que o Porto passa por mim, o Majestic é um destino matinal de quase culto.
E fui de novo atendido pela mesma menina simpática de cabelo escuro, óculos e rabo de cavalo:
- Faça favor de dizer ( sem sotaque).
- Uma torrada com muita manteiga , um néctar de pêra e um pastel de nata ( com sotaque, deve ela ter pensado).
Os chineses perdiam-se em cliques pela fachada, o companheiro de uma alemã sugeria que ela se pusesse na melhor pose para a foto com o café em fundo, um lavador de janelas a caminho cumprimentava toda a gente com um sorriso de homem mais feliz do mundo que faz brilhar os reflexos de quem vê montras, algumas vendedoras de rua assediavam passantes internacionais, e o resto era burburinho comum daquela hora.
Um polegar no ar sugere-me o olhar do outro lado da rua que o sol iluminava. Sigo-lhe o trilho pelo braço até ao sorriso. Começa a caminhada a passos largos na minha direcção. Creio mesmo que a cada passo o sorriso se rasgava. E nunca conseguiria travar a tempo se continuasse naquele acelerar direito a mim. Mas as cadeiras eram de ferro forjado o que me deu alguma segurança, bem como os bancos corridos do mesmo material confiante. Nem me lembro se bloqueou os passos ali à "minha beira".
- Tás bom mano? Há quanto tempo car...( sempre com sotaque)
Fiquei a ohar para ele sem saber se de frente ou de lado.
Tira os óculos para me ver melhor.
- Sou o Lúcio mano. Não te lembras? Eu não esqueço o Nelo das Fontainhas, nem em mil anos mano.
- Acho que me estás a confundir com outra pessoa.
- Mas qual outra pessoa és tu que eu conheço-te. Fomos vizinhos em costas...fo....
- Em costas???
- Andaste com a amnésica tu? Moraste lá meio custado e eu dois.
Para me pedir alguma coisa percebi que não era. Mas a conversa deixa-me curioso.
- Meio custado?
Depois de um sorriso desconfiado de sobrolho franzido diz-me:
- Tás-ma fo... Em Costas mano. Não me digas que te perdeste.
- Mas olha que não sou eu.
Olha-me mais fixamente e diz que não com a cabeça em jeito conclusivo.
- Pardeste-te mano. Tou-ta ver. O Chias também se perdeu. Por isso nunca meti. Mas olha gostei de te ver. Acredita.
E dá-me umas palmadas afectuosas no ombro ao levantar-se.
- Mas olha que não sou mesmo eu pá.
Ri com ar de quem está a ser enganado e diz-me já de pé a por de novo os óculos.
- Deves ser cantor tu, pois deves.
A afasta-se a passo lento, decepcionado.
Voltei ao cenário com o pousar da torrada trazido pela menina do café.
Sabores da memória
Entre esfera e círculo... prefiro-me ponto...final.
___________________________Entre esfera e círculo ...
vieste pela boca como peixe que se morre a cada anzol...
disseste-te estrela ...
hoje sei-te apenas reflexo do brilho próprio que desejaste...
um dia tropeça-te de novo o pé nesse teu chão de nuvens...
e estilhaças-te em pedaços num estrondo de silêncio...
uma das cores safira te chamaste...
conheço-te hoje o verdadeiro nome...
de imensidão "cavernosa" e densamente sombria...
és apenas "Falso Cristal"...
___________________________prefiro-me ponto...final.
Lua crescente... de Março
Falaste-me de sonho...de Lua crescente na vontade deste Março...
dou-to num todo "quase nada" de C ... de Cabrel.
Excertos de Março
Dá-me os teus olhos ...e veste-te de negro luz...
Dá-me os teus olhos...e vem passear de braço dado pela rua das mil cores, dos mil cheiros, dos mil sons...das mil luzes.
Vem em silêncio.. a passos curtos...vem sempre em frente ou pelas tuas esquinas que nunca dobraste. Vem até ouvires a concertina vermelha do cego, sentado num caixote de madeira acabada, naquela esquina de Barbés. Segue-lhe o som...segue-lhe a sorte...segue-lhe a vontade de ter o mundo a cada diatónica, na ponta dos dedos que nunca viu.
...dá-lhe os teus olhos... e veste-te de negro luz.
Era uma vez...
Na espiral, entre percepção e memória...
... cumpro o ritual adiado, colocando-as em Lemniscata.
Nickel...back...again
O quarto estava por um fio... azuladamente penumbrado. Na rádio dos mil
sons ouvi-a de novo...não resisti a desbocar-me...o
tema é simplesmente "Excelente" ... ( isto deu-me para a assonância)
Xadrez

Foto: Mika
Voltas para o perto deste lado
Queres, a dizer-me baixinho, que te agarre
Como se nunca tivesses fugido
Como se nunca te tivesses trocado por nada
Trazes desta vez um sorriso dobrado
Que observo por trás do teu andar indeciso
Queres voltar a ser aquilo que decidiste perdido
Quando te roubaste tempo e o deixaste morto
Fizeste o que mais te convinha
O que o teu impulso "novo" te segredou
Sem sequer pestanejar, igual ao resto do todo
Baptizaste-te de ética, de verdade, de convicção, de exclusividade
E no voltar caem-te por entre os dedos, todos os apelidos ao chão
Trazes-me sabores de mar sempre nos passeios de deserto
Que dizes de nós, diferente, a cada grão de areia
A cada gota de oceano provado a emiscuir-se no escuro
Pareces-me afinal pouco do teu todo que contas
Dizes que tudo podes, em qualquer tempo que a gramática inventou
Mas quando conjugas o verbo no Eu, nada cabe na primeira pessoa
Só a ti te importas só a ti te validas o perdão
E quando hipoteticamente mudamos o jogo
Mostras prontamente que só sabes jogar do lado que te convém
Porque só nele sabes poder ganhar.
Tudo te podes, tudo te permites, mas...
Ao jogares do outro lado do tabuleiro não resistirias, como assumes, à insuportabilidade do cheque mate.
Intervalos vários...
Nesse intervalo a minha companhia saiu com objectivo nicotinico e nem reparou no ecran. Eu também não...assim de repente, aposto o meu porquinho mealheiro que tu também não repararias.
Os olhos passearam-se por todas as opções disponíveis da sala até restar a última...
"INTERVALO
Segure-a bem, descontraia-se."
Será que foi uma ilusão partilhada pelo meu aprisionador de momentos de bolso? Ou também já viste num intervalo perto de ti?
Pensei provavelmente o mesmo que tu... já agora comenta! O que pensarias, na cadeira do cinema, ao leres o mesmo que eu li?
Sim sim tu que estás aí com o nariz pertinho frente ao teu monitor catódico ou LCD... vá lá confessa o que pensarias...desafio-te.
Ary... a quatro vozes
A primeira "semente" do ano par
Como fã de uma das melhoras bandas dos 80's , "Jafumega", partilho o meu tema preferido da playlist de janeiro que vos proponho. "Uma semente" - Luis Portugal...uma letra com acordes simples e fantástica... Vou tentar arranjar a versão original. Até lá fica esta para ir saboreando...assim devagarinho, ao ritmo de semente de canteiro...
Que eu pudesse semear
Eu fazia um canteiro
No melhor do meu jardim
Protegia-o da geada
Dava-lhe o sol a beijar
Tratava do meu canteiro
Como se fosse de mim
E se a flor tivesse as cores
E os reflexos da tua voz
Se tivesse o mesmo cheiro
E o porte que já te vi
Acreditas que eu teria
Plantada no meu jardim
Pintada na minha alma
Se não te posso ter a ti
Se houvesse uma semente
Que eu pudesse semear
Eu fazia um canteiro
No melhor do meu jardim
Protegia-o da geada
Dava-lhe o sol a beijar
Tratava do meu canteiro
Como se fosse de mim
E se a flor tivesse as cores
E os reflexos da tua voz
Se tivesse o mesmo cheiro
E o porte que já te vi
Acreditas que eu teria
Plantada no meu jardim
Pintada na minha alma
Se não te posso ter a ti
2010... O ano par...!?
2010...conta-me histórias