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As conversas são como as cerejas mas raramente dão sumo (ainda estou à espera de um kilo delas ...que me prometeram...). Dietético ou calórico, com mais ou menos polpa, de frutas ou legumes, virtual ou fisíco. O liquidificador neuronal girou, seguindo a gravidade a cada elemento. E o abstrato tomou forma, num sumo de cereja a 4 mãos.
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Alto e magro, crescera sem esqueleto.
Viu-o e desencantou-lhe os ossos e ele conhecendo-se novo chamou-lhe princesa.
Todos os dias roía-lhe os ossos que lhe inventara de forma a convencer-se que eles existiam…
Soubera em tempos pô-los em ordem uns atrás dos outros.
Sentir-lhes as formas, torná-los reais e deixá-los crescer.
Como se tivessem sido sempre parte desse seu tempo, onde a carne se faz vestido, onde o sangue latejante escreve a vida.
Outro Sol descobre-se por detrás da colina imperfeita.
Os sons de gente na cidade a acordar, no zumbido de outro e outro dia.
Ziguezagues, zumbidos, colmeias sem mel, paralelípipedos de betão sem janelas…, precisava de inalar o Azul, cobrir-se com o som do mar, rasgar o peso de todos os Tic-Taques que o sufocavam.
De olhos em bicos-de-pé encarou o SOL…
Cada vez mais a custo, lembrava outras tardes em que o sopro do vento lhe cortava o olhar.
Secava-lhe a boca, na memória sem nexo do adormecer devagar.
Os olhos que teimavam fechar-se e a cidade ali a recomeçar, depois de outra noite no fumo de medo.
Haveria de conseguir, nem que lhe custasse o preço de todo o passado.
O preço do passado…o preço do passado…disco riscado martelando, esculpindo a dor.
Furou os tímpanos, ensurdeceu os fantasmas e gargalhou tão estridentemente que todos os seus vidros se configuraram janelas…
Impotente, oásis do grito, subiu a custo outro lanço de escadas com o soalho por testemunha. Paredes cinzentas pelo pisar de pés, apoio de mãos, conversas baixinho, putos e bolas, cuscuvilhices de vizinhança, amantes sem morada.
A chave que desafiava a ranhura, derradeiro esforço antes da paz do chegar. Pesadelo de sufoco que agitava dois mundos, suor que brotava dos poros, no frio de Novembro.
Deu por si a descer as escadas. Cada passo a dizer não ao cinzento das paredes, não a todos os pés que desconheciam a sua história, não a todos os Novembros que lhe usurpavam e gelavam o Querer.
Viu-se a pisar a rua e fez-se Agosto. Centrou-se em cada passo e descobriu o amanhecer límpido e prazeiroso que lhe nascia das entranhas. Jogou a mão ao bolso e desconheceu: o jogo de chaves, as portas, as fechaduras, que lhe havia aprisionado o Calor.
Correu direito a todos os lados, desejou-se no verde fresco de erva molhada, na sombra de um cipreste…e correu… E reviu todo o sonho enquanto corria, e deixou a vontade levá-lo por onde o pesadelo não quis. E correu…correu ainda mais e mais rápido, para o mais longe que a imaginação inventou. E deixou para trás os tropeções da dúvida, os rituais de iniciático, as palavras pesadas de ordens impostas, os triunfos e as derrotas de quem não era ele, os compassos de músicas que nunca marcou… e no final mais longínquo de todos os fins…aquele que fica para lá da distância segura…parou.
Olhou-se parado, sem pés, sem pernas, sem canga.
Sentiu-se veloz como jamais se conhecera.
Fez-se roteiro, descobriu-se viagem.
Colou todos os favos adormecidos.
E partiu…………inteiro………com gosto de mel…….inalando perfumes inebriantes………

1 comentários:

anjo disse...

chamou-lhe princesa
onde o sangue latejante escreve a vida
detrás da colina imperfeita
outro e outro dia
sem janelas…,
inalar o Azul
encarou o SOL…
depois
no fumo de medo.
…o preço do passado…disco riscado esculpindo a dor.
Deu por si a dizer não ao cinzento
e fez-se Agosto e desconheceu: o jogo de chaves, as portas, as fechaduras, que lhe havia aprisionado o Calor.
…e correu… E reviu todo o sonho
. E correu…correu ainda mais e mais para o mais longe
Fez-se roteiro, descobriu-se viagem.
E partiu…………

Podia tentar talvez um rabisco com palavras minhas mas li e reli... prisioneiro...inalar o AZUL... correr
… partir…… inteiro………com gosto de mel…….inalando perfumes inebriantes………e lá estou eu de novo perdida em ti