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A arma do povo



“Assim se vê a força do PP”, “Santana amigo o povo está contigo”, “ O povo não quer Sócrates no poder”...
Já tinha ouvido qualquer coisa parecida há uns anos… mas se calhar estou a fazer confusão.

Nunca percebi porque é que a maioria dos eleitores se veste sempre como se fosse para a ópera, para ir votar. Nalguns casos valha a fragrância do perfume que se sobrepõe à naftalina. Gravata e casaco para eles, não esquecendo o sobretudo…Casaco de peles para elas ou imitação se os recursos forem outros.
Votar é sempre um óptimo e agradável momento para cada eleitor…seja rico ou pobre, classe média ou alta, trabalhador ou patrão. Sentimo-nos importantes porque podemos decidir o que nos apetece e votar.
O meu voto ia voltar a ser botado numa urna do burgo, depois de um afastamento geográfico duma década.
Conseguir consultar a mesa de voto que me correspondia, foi logo a primeira vitória democrática, mas de luta. Apesar de a maioria dos votantes ser de estatura que permite olhar por cima das cabeças ou do ombro na pior das hipóteses, a lista estava ainda longe a uns quatro metros… “Olha Joana a tua é a mesa 7”, “Manel Manel anda cá, a lista está ali. …Cólicença cólicença”, “Olhe não se importa diga-me lá onde é que devo ir, que eu não sei ler”, “ Ò amigo não empurre que chegamos lá todos”, “É por ali é por ali”
Depois de uns dois minutos que mais pareciam uma ditadura, lá consegui a primeira vitória pessoal em dia de eleições. Mesa 14…bolas estava difícil.
A seta indicava que era pela esquerda a mesa 14.
A escola era a mesma onde fiz o antigo ciclo preparatório. Não resisti air pelo caminho mais longo, só para rever o cenário ainda familiar mas com 30 anos de upgrade.
As árvores de “ervilhas”, descobertas para se esborrachar debaixo da secretárias dos professores quando não queríamos ter aulas…o cheiro era insuportável…um apolítica excelente, para as aulas de educação musical onde realmente tocar pífaro não era apanágio daquela turma.
O chão de alcatrão e pedra, mais escuro na época. Antigamente o material era melhor, ou seria que andávamos sem arrastar os pés para não gastar as solas e o piso?
Uma rampa que hoje faria corar de vergonha qualquer Conselho executivo…onde na altura se descia numa tábua de madeira, antecipando o actual snowboard. A juventude era muito visionária.
As balizas eram as mesma só mudou a cor da tinta. E desta vez estavam presas ao chão.
Os putos de hoje, em dias de frio e muito pouca vontade de fazer desporto, já não as podem esconder para não haver jogo…nem precisam até porque o futebol se tornou ainda mais popular e não me admiraria que fizessem greve só para poder jogar.
Mesa 14…no primeiro andar. Subi as escadas… 18, 17, 16, 15, cheguei. Dois eleitores antes de mim, as outras salas estavam pelo menos 20 à espera.
A sala era especial. A primeira em que tive uma aula no ciclo preparatório, ainda com dois quadros do presidente da republica e do primeiro ministro da altura. Depois naquele curtíssimo compasso de espera talvez por dois eleitores indecisos, lembrei-me estranhamente da primeira frase da professora:
“Bom dia eu sou a vossa professora de português e este momento é muito importante para todos vocês”… e fiquei por lá nessa memória do tempo.
“Se faz favor”, acho que repetiu duas vezes o presidente da mesa. E lá dei o BI e cartão de eleitor…votei…entreguei o boletim perguntei se me davam um para por no blog, toda a gente ficou a olhar uns para os outros, sorriso amarelo, e não insisti...
Voltei a percorrer alguns dos corredores, as zonas do recreio em terra onde se jogava ao berlinde eram agora em pedra. As traseiras do pavilhão onde se davam umas passas de 3 vintes e 2002, serviam também para jogar ao bate pé e ganhar uns beijinhos.

Tive a brilhante ideia de ir até à escola primária, não muito longe dali. Em dia de eleições com sorte também devia estar a ser utilizada para mesas de voto…e estava mesmo. Os azulejos eram os da época, as carteiras mudaram …e nunca vi aquela escola com tanto adulto no recreio. Dantes eram só putos no masculino.
Se cada momento cívico tivesse o gosto destas saborosas visitas, acho que a percentagem de abstencionistas se aproximava do zero.

2 comentários:

Anónimo disse...

sabes, estava à espera desde domingo à tarde de te encontrar aqui e exactamente com o que escreves-te
até breve
aquela que ainda quer ser anjo para ti

maria_arvore disse...

O bom do dia das eleições é poder voltar às escolas das nossas memórias. :)
Mas pá, eu voto naquela escola das Barrocas que nunca frequentei e as minhas memórias de infância são mais os concursos de máscaras de Carnaval da Incrível, o Condestável, o Tropical e o Calhambeque, locais onde infelizmente não existem mesas de voto. ;)