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Devota

Hoje, dia de voto, a rua acordou silenciosa. Menos carros, mais gente a caminhar de forma discreta e poucas conversas de esquina.
Esperava ansiosamente pelas Europeias 09 para completar a teoria, de que em dias de procissão e voto, o nivel sonoro é estranhamente reduzido.
Não há buzinas, nem demonstrações de décibéis em tuners de corres vivas, não há aquele barulho característico de rua movimentada por quem passa, como se a querer deixar a marca ao passar, no passeio dos famosos de rua banal.

Ele, de traje descontraído vai uns passos mais à frente da esposa, de penteado cuidado e roupa ainda a denunciar naftalina e mala acordada ao vegetal. Ele sai todos os dias, ela não. Ela, mesmo que uns passos mais atrás tem orgulho nesse passear com o seu homem mesmo àquela distância, mesmo que apenas para ir ao fundo da rua direita para votar, num ir eternamente curto, de tão agradávelmente invulgar que se tornou.
E ele, sorridente, fala aos amigos por quem passa e ela espera uns passos mais à frente. O momento mais próximo em que estão juntos na saída de dever cívico, é na fila da mesa de voto, se a afluência de votantes promover esse restício de tempo a dois. De olhares descruzados, mas próximos.
E votam...ele primeiro...ela depois...e ele sai....e ela sai acelerando o passo para não o perder na caminhada lenta.
Ela fala a uma conhecida e ele continua o caminhar de mãos atrás das costas, sedento que chegar a todo o lado que não aquele. Ela despede-se a correr e retoma-lhe o rasto na última calçada até casa.
Chegam, no mesmo silêncio em que partiram. Ela tira o casaco e de forma cuidada pendura-o no cabide da esperança, de voltarem ainda a sair. Veste o bibe, serve-lhe o almoço na mesa da cozinha enquanto ele pousa o jornal desportivo na cadeira de ninguém.
A conversa resume-se a temas gastronómicos próximos, deixando os talheres travarem diálogos repetidos e tão desinteressadamente atraentes.
Ela olha-o depois da derradeira colher de arroz doce esperando que diga algo diferente de:
- Vou ao café. Até logo.
A cadeira dele continua o diálogo previsível e arrastado, a porta da rua termina-o em ponto final.
Na cozinha a água passeia-se por pratos, talheres e panelas.
No regresso ao silêncio, ela vai ao quarto...despe a roupa e a fé de outra saída adiada...até ás proximas eleições.
Abre a janela, tira o canário do prego e põe a gaiola na cozinha.
Dá de beber ás plantas e recebe o sorriso florido de hoje. Liga o rádio da sala, apoia-se na almofada para os cotovelos no parapeito da janela grande e fica a ver quem passa, desejando noutro sorriso escondido, ser demoradamente levada pela mão...só até ao fim da rua.

8 comentários:

Anónimo disse...

Ola meu querido..por incrivel k pareca ainda ha mt gente assim,transcreveste uma situacao ao promenor,mt bem escrito e a parte final o sentimento verdadeiro daquela mulher,o desejar ser levada pela mao,nem k seja so ate ao virar da rua..um sonho,um dos mts desejos quando um dia idealizou o casamento perfeito..
beijos..
New Yorkina

Anónimo disse...

É espantoso como há pessoas que se contentam com tão pouco...tão nada. Enquanto que outras...
Serão felizes?
Para mim,este é um verdadeiro mistério. Não consigo medir (in)felicidades.
Gostei da sensibilidade aqui lida.

Lena (spaces, mais ou menos amplos)

Paula disse...

Mas por incrível que pareça ainda há casais que mesmo atingindo idades mais avançadas conseguem fazer de uma rotina diária um prazer imenso e manter o sentido de humor!
Não há uniões perfeitas. Mas tem de haver uma capacidade de adaptação à mudança do outro e sobretudo não estar à espera de receber, mas sobretudo, dar.

Abraço

Feiticeira disse...

Excelente Mica! Perfeito relato real! Expectacular trnscrição
transcrição de muitos afectos e desafectos..

Bjinhos

Anónimo disse...

Olá amigo. Esse quadro que apresentaste e muito bem, retrata o Portugal de ontem e de hoje...
O mesmo cheiro a naftalina, os mesmos gestos, os mesmos receios...
Para quando a mudança?!
Beijo (sempre)

Quase nos 50 disse...

Cenas da vida pública/privada de muito boa gente.
Que vive apenas à espera da morte.
Um abraço

Carla disse...

gostei de ler...
dizer-te também do meu livro...In-finitos sentires que vão ser desenhados em papel. O lançamento é no próximo dia 27 de Junho, às 16 horas na Biblioteca de Valongo (Porto)...aparece se puderes
beijo

Azul disse...

Olá Mika! Em gesto de agradecimento pelo interesse que tem demonstrado pelos meus escritos, venho finalmente (espero ainda num tempo educado!) retribuir-lhe a visita.

O que acabo de ler vem de um olhar rigoroso e atento aos que por si passam, já sem passar, pois que morreram e foram por eles mesmos enterrados num tempo e num lugar que cheira, mais do que a naftalina, a bafio, quero crer! Por mais que me esforce por ponderar as razões ainda válidas para muitas das nossas gentes (como aquelas que aqui descreve), que justificam que o amor seja feito destes pacotes de sinais tão discretos, tão (aparentemente) correctos, tão engomados, não consigo subscrevê-las. Nem num domingo de votos, num dia de actual Liberdade, as pessoas dão mostras de vitalidade! De facto, está tudo tão na mesma que até impressiona!

Como você muito bem observa e diz, o que me incomoda a mim, severamente, é precisamente o silêncio em que andamos todos. Já não um silêncio que diz o que quer que seja, mas antes um silêncio de morte, como é de morte que este casal fala tão bem do que já não é entre-si!

Bem haja. Gostei de o ler e vou segui-lo também. Obrigada. Até breve. Azul.