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Avenida "Pôr do Sol"

O copo ainda a gaseificar empurrado pela brisa com que a barra da baía se deixou invadir. Imagino como seria se o silêncio fosse sempre igual a si próprio.
Na irrepreensibilidade deste quase por do Sol de Outubro, os “salpicos” vizinhos,
provocam-me sorrisos aleatórios, tirando-me o gosto do tabulóide semanal, fazendo-me resistir à leitura..
Três idosas, discutem a forma de acender a televisão caso as pilhas do telecomando perderem “força”:
- Ai isso a mim não me incomoda…a primeira coisa que faço quando chego a casa é carregar no botão e tenho sempre televisão. Aquilo tem lá uma catrefada de botões mas eu só carrego no um ou três ou quatro. E nunca mudei as pilhas. Uma vez começou a não funcionar e passadas umas semanas já não dava nada avariou-se e mandei lá o vizinho que também é reformado…ele disse que aquilo era uma avaria normal porque a marca não era grande coisa. Comprou outro coiso daqueles…lá umas peças para o interior lá daquilo e agora funciona que é uma maravilha..
- Apre que o arranjo não saiu barato
- Ah pois isto de fios e electricidade é tudo muito complicado e caro…olhe a minha televisão não tem cá nada disso…era domeu filho…deu-ma quando comprou uma daquelas que se põe na parede …ai agora não me lembro do nome…ah…de plástico.
Outro idoso procura o melhor lugar no que restava de mesas vazias. Depois de experimentar duas cadeiras da superbok e uma da sagres optou pela do ice tea. E a provar-se expert da sociedade de consumo:
- Ó senhor empregado se faz favor (estalando os dedos de mãozinha no ar). Traga-me um compal de sumos vermelhos se não se importa.
- Um compal de quê?
- Daqueles… de sumos vermelhos.
- Desses não temos.
- Então há de quê??
- Temos todos menos desses.
- Então pode ser uma bica cheia pingada em chávena escaldada.
Noutra mesa, a cliente aproveitou a passagem do empregado para também pedir:
- Olhe posso pedir? Era um galão claro, uma tosta mista em pão de forma com pouca manteiga e um pastel de nata, obrigado.
Toda a frase em sotaque do “nordéstchi” frescamente cuspido com alguns perdigotos visíveis na contra luz, que fizeram o empregado afastar-se disfarçadamente cerca de um metro, entre “pedir” e “pastel de nata”.
E a vida continua normalmente na esplanada em ambiente tranquilo de fim de tarde. Para quebrar todo o cenário…Vem não se sabe de onde um puto numa daquelas motos eléctricas e passa pelo corredor entre as mesas. Rápidamente percebi que o objectivo era o parque infantil que se encontrava no lado oposto, tinha escrito nos olhos “Eu quero lá chegar jááááááááá”…no caminho, atira ao chão o casaco pendurado nas costas da cadeira do senhor dos sumos vermelhos, projecta uma das bengalas das senhoras TV que aterra na canela de uma outra e a provar que brasileiro é cheio de ritmo e samba fez com que numa fracção segundo a menina perdigoto com um fio de queijo pendurado ao canto da boca se agarrásse ao galão acabadinho de chegar ao mesmo tempo que media a probabilidade de também o pastel de nata ter o mesmo fim que o casaco e a bengala.
Mas o puto passou, decidido a que o passeio era todo dele, numa corrida desenfreada até à meta mental a que se propôs cortar, sem olhar a meios porque “ Eu sou jovem e o mundo é meu”.
Ainda no rescaldo da situação….aparece a mãe do precoce piloto. Óculos escuros enoooooormes, daqueles tipo, “ adoro esconder-me atrás dos óculos”, 3 revistas debaixo do braço e uma a ser lida em andamento, mala de franjas, calças justinhas e botas western da mesma cor do cabelo “flutuante”:
- DIOGOOOOOOOO JÁ LHE DISSE QUE NÃO QUERO QUE SAIA DO PÉ DE MIM. VENHA CÁ IMEDIATAMENTE FAZ FAVOR.
O Diogo por esta altura já devia estar no pódium.
Gosto destes finais de tarde que atropelam o tédio e dão sururu à boca baixa.
-A conta por favor...

3 comentários:

Paula disse...

Obrigada por me fazer sorrir ao ler este texto. (Cheguei a rir nalgumas passagens)
Descrição exemplificativa de uma situação simples do dia a dia, mas cheia de humor.
Realmente algumas conversas de café se fossem registadas fariam rir muita gente e provavelmente também aqueles que foram os intervenientes.

Abraço e escreva sempre!

celia disse...

ler algo e sentir-se sentado numa esplanada assistindo e apreciando as coisas simples k la se passa e k na maioria das vezes nao damos por ela,é sentir k quem escreve assim tem p poder de nos fazer parar mais e nos fazer pensar k por vezes ate k seria interessante apreciar situaçoes caricatas k nos faria esquecer por um tempo o nosso dia a dia,parabens,nao ha nada mais k se possa dizer..pq o mt bom é pouco e o excelente nao chega para eu expressar o k acabei de ler.
continua..

By myself disse...

Essas cenas públicas tb me prendem a atenção (por vezes demais).
Ouvir as mãezinhas tratar os putos por você, pôe-me os (longos) cabelos em pé!

Bjs