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Nevoeiro é: D. Sebastião, cheiro de nuvens, o vento que se esconde, o querer ver e ele não deixar, é rolar com outro cuidado, é um olhar atento, e sinónimo de final de estação.
Trouxe com ele o frio. Hoje foi dia de mudança. No tempo, na vontade de mudar o tempo sem saber se o outro tempo que virá será tão denso quanto este.
Os barcos ecoam no rio apalpando com sons a calmaria do Tejo.
Nevoeiro é o silêncio de passagem para outro lado. Nevoeiro é tudo o que cabe escondido até decidir ser assim. O nevoeiro é respeitado pelos heróis de todos os mares.
Mas afinal é tão fraco e imprevisível que uma brisa teimosa lhe leva num ápice todo o encanto.
Sempre gostei dele. De o respirar, de o tocar de lhe adivinhar o rumo.
O nevoeiro engana e joga às escondidas com quem o quer perceber.
Marcou as últimas manhãs e hoje quase todo o dia.
Acho que se um dia pudesse ser como ele não queria ser mais nada. Deixar-me levar por uma brisa que me elevasse o estado, tornar a ser nuvem altiva até me transformar em gota mergulhante, penetrar a terra e voltar a ser vapor e de novo água. Matar fogos e sedes, alimentar planícies e faunas. Ser livre de poder voltar a sê-lo de novo. Regressar e fazer mais uma vez todo o caminho de volta. E outra ainda , com mais empenho, com mais vontade de ser nevoeiro. Com mais empenho na vontade.
Se o nevoeiro se for , porque todos eles se vão, que leve com ele tudo o que o quer deixar ficar. Que leve tudo sem rasto. Porque um dia sei que vai voltar e eu abrirei os braços para nele fluir.

2 comentários:

Teresocas disse...

Tal é a vontade meu amigo... Também quero ser nevoeiro, quero sim... e muito!

Ana disse...

" ...O nevoeiro engana e joga às escondidas com quem o quer perceber. "

- Não sinto o menor desejo de brincar num Mundo em que todos fazem batota ( François Mauriac )