Sabores da memória
Entre esfera e círculo... prefiro-me ponto...final.
___________________________Entre esfera e círculo ...
vieste pela boca como peixe que se morre a cada anzol...
disseste-te estrela ...
hoje sei-te apenas reflexo do brilho próprio que desejaste...
um dia tropeça-te de novo o pé nesse teu chão de nuvens...
e estilhaças-te em pedaços num estrondo de silêncio...
uma das cores safira te chamaste...
conheço-te hoje o verdadeiro nome...
de imensidão "cavernosa" e densamente sombria...
és apenas "Falso Cristal"...
___________________________prefiro-me ponto...final.
Lua crescente... de Março
Falaste-me de sonho...de Lua crescente na vontade deste Março...
dou-to num todo "quase nada" de C ... de Cabrel.
Excertos de Março
Dá-me os teus olhos ...e veste-te de negro luz...
Dá-me os teus olhos...e vem passear de braço dado pela rua das mil cores, dos mil cheiros, dos mil sons...das mil luzes.
Vem em silêncio.. a passos curtos...vem sempre em frente ou pelas tuas esquinas que nunca dobraste. Vem até ouvires a concertina vermelha do cego, sentado num caixote de madeira acabada, naquela esquina de Barbés. Segue-lhe o som...segue-lhe a sorte...segue-lhe a vontade de ter o mundo a cada diatónica, na ponta dos dedos que nunca viu.
...dá-lhe os teus olhos... e veste-te de negro luz.
Era uma vez...
Na espiral, entre percepção e memória...
... cumpro o ritual adiado, colocando-as em Lemniscata.
Nickel...back...again
O quarto estava por um fio... azuladamente penumbrado. Na rádio dos mil
sons ouvi-a de novo...não resisti a desbocar-me...o
tema é simplesmente "Excelente" ... ( isto deu-me para a assonância)
Xadrez
Foto: Mika
Voltas para o perto deste lado
Queres, a dizer-me baixinho, que te agarre
Como se nunca tivesses fugido
Como se nunca te tivesses trocado por nada
Trazes desta vez um sorriso dobrado
Que observo por trás do teu andar indeciso
Queres voltar a ser aquilo que decidiste perdido
Quando te roubaste tempo e o deixaste morto
Fizeste o que mais te convinha
O que o teu impulso "novo" te segredou
Sem sequer pestanejar, igual ao resto do todo
Baptizaste-te de ética, de verdade, de convicção, de exclusividade
E no voltar caem-te por entre os dedos, todos os apelidos ao chão
Trazes-me sabores de mar sempre nos passeios de deserto
Que dizes de nós, diferente, a cada grão de areia
A cada gota de oceano provado a emiscuir-se no escuro
Pareces-me afinal pouco do teu todo que contas
Dizes que tudo podes, em qualquer tempo que a gramática inventou
Mas quando conjugas o verbo no Eu, nada cabe na primeira pessoa
Só a ti te importas só a ti te validas o perdão
E quando hipoteticamente mudamos o jogo
Mostras prontamente que só sabes jogar do lado que te convém
Porque só nele sabes poder ganhar.
Tudo te podes, tudo te permites, mas...
Ao jogares do outro lado do tabuleiro não resistirias, como assumes, à insuportabilidade do cheque mate.
Intervalos vários...
Nesse intervalo a minha companhia saiu com objectivo nicotinico e nem reparou no ecran. Eu também não...assim de repente, aposto o meu porquinho mealheiro que tu também não repararias.
Os olhos passearam-se por todas as opções disponíveis da sala até restar a última...
"INTERVALO
Segure-a bem, descontraia-se."
Será que foi uma ilusão partilhada pelo meu aprisionador de momentos de bolso? Ou também já viste num intervalo perto de ti?
Pensei provavelmente o mesmo que tu... já agora comenta! O que pensarias, na cadeira do cinema, ao leres o mesmo que eu li?
Sim sim tu que estás aí com o nariz pertinho frente ao teu monitor catódico ou LCD... vá lá confessa o que pensarias...desafio-te.
Ary... a quatro vozes
A primeira "semente" do ano par
Como fã de uma das melhoras bandas dos 80's , "Jafumega", partilho o meu tema preferido da playlist de janeiro que vos proponho. "Uma semente" - Luis Portugal...uma letra com acordes simples e fantástica... Vou tentar arranjar a versão original. Até lá fica esta para ir saboreando...assim devagarinho, ao ritmo de semente de canteiro...
Que eu pudesse semear
Eu fazia um canteiro
No melhor do meu jardim
Protegia-o da geada
Dava-lhe o sol a beijar
Tratava do meu canteiro
Como se fosse de mim
E se a flor tivesse as cores
E os reflexos da tua voz
Se tivesse o mesmo cheiro
E o porte que já te vi
Acreditas que eu teria
Plantada no meu jardim
Pintada na minha alma
Se não te posso ter a ti
Se houvesse uma semente
Que eu pudesse semear
Eu fazia um canteiro
No melhor do meu jardim
Protegia-o da geada
Dava-lhe o sol a beijar
Tratava do meu canteiro
Como se fosse de mim
E se a flor tivesse as cores
E os reflexos da tua voz
Se tivesse o mesmo cheiro
E o porte que já te vi
Acreditas que eu teria
Plantada no meu jardim
Pintada na minha alma
Se não te posso ter a ti
2010... O ano par...!?
2010...conta-me histórias
Final original do ano (in)par
Chamem-me mentiroso...mas tinha que vos dar outra...não me interessa, não podia deixar de partilhar este video cá do burgo antes do final deste aninho quase despedido.
Em tempo de crise tiro o meu barrete de inverno à TAP apesar de não ser originalmente global, cá pelo burguinho penso que foi. Que 2010 traga momentos multiplicados destes e de outros.
( thanks Cris)
Até 31
Esta é última que dou este ano e entro em férias de inverno. O meu espírito contra, prefere o mar à neve.
Daqui não saio até à última badalada da meia noite de 31.
- Era uma tosta mista em pão alentejano, um chocolate quente e um cheesecake de limão. E já agora uma daquelas mantinhas que estão ali nas espreguiçadeiras.
O Tejo tem novas histórias, para me contar ao ouvido.
L'ombre au tableau
Bem vindos ao ano par.
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Un paysage de terre cuite, un ciel qu'on dirait de Magritte
La grange couverte de lierre, le lézard qui dort sur la pierre
Le chat enroulé sur le seuil, l'insecte caché sous les feuilles
Le monde est dans ses couleurs pures comme dans tes boîtes de peinture
Venue d'au-delà des nuages du fond du temps et des âges
Il tombe une étrange lumière d'herbe, de vent, de poussière
Sur nos deux fauteuils inutiles, ce cerf-volant pris sur les tuiles
Les choses semblent être éternelles comme dans tes boîtes d'aquarelle
Dans le bleu ciel, entre les branches, l'avion laisse une traînée blanche
Comme un ruban, un long nuage, comme pour dire "Tout se partage"
Au matin sur le lac immense, il suffit qu'une barque avance
Et l'eau tremble à n'en plus finir comme pour dire "Tout se déchire"
Peut-être, essaies-tu quelque part de peindre l'amour de mémoire
De recomposer les couleurs d'automne mourant sur un coeur ?
Si tu veux savoir où j'en suis, les choses ont peu bougé depuis
Ce jour où tu as tourné le dos, sauf peut-être l'ombre au tableau
Dans le bleu ciel, entre les branches, l'avion laisse une traînée blanche
Comme un ruban, un long nuage comme pour dire "Tout se partage"
Comme pour tes débuts à la gouache, sur la jolie toile une tache
Toute dans le blanc diluée comme pour dire "Tout se défait"
Dans ta lumière favorite, celle qu'on dirait de Magritte
La grange couverte de lierre, le lézard qui dort sur la pierre.
Aicha
Pigalle molhava-se num tremer de outono. O odor a kebab a soltar-se provocante na esquina.
O Moulin entorpecia desejos iluminados. A noite apressada passeava-se de Clichy a Boulogne, a Foch...para morrer no Sena depois da última gota de Beaujolais. Um vão de Saint-Louis abrigou-lhe o último adormecer. Na porta do julgamento, escolhidos e condenados clamam ao Sol outro nascer. Maomé tinha-a escolhido.
"Sismado"
Os espanta espíritos agitaram-se assinalando numa subtil sonoridade o romper daquele silêncio de 1:37 da madrugada. As velas continuaram empenhadamente acesas sem mexer . A terra abanou.
Senti esse estremecer como se de uma carta de baralho empilhada me tratasse. Durou dois ou três segundos que abraçados à eternidade da impotência me pareceram minutos, ou horas atadas ao infinito da lógica. Era apenas um sismo. Alguns alarmes acordaram do alerta permanente que silenciam. Dois cães uivaram nos quintais vizinhos. E eu ali de pé, a herdar réstias de invulgaridade sismica.
Fui á janela e o céu estava tranquilo,não havia vento a provocar as folhas heróicas de final de outono, as luzes da rua serenas, o semáforo tinha mudado para verde, o último autocarro passava pachorrento na avenida, uma porta a fechar-se nas escadas... tudo estava onde sempre esteve sem laivos de diferença.
Uma ilusória realidade ?...e fui dormir.
Ida de regressos

Novembro tinha chegado e com ele a vontade de acender a lareira.
Riscou num fósforo comprido o desejo que o calor lhe inundasse a sala, iluminado pelas velas de tons quentes, subtilmente perfumados.
Envolveu as mãos na chávena de chá roubando-lhe num afago o calor apetecido.
Escorregou-se pelas almofadas a moldarem-se ao corpo numa empatia que sabia de cor.
E o ar invejoso a querer roubar-lhe o momento no evaporar do chá, que gostava quente e fumegante.
Os últimos dias foram como se tinha habituado no último ano, depois do divórcio legítimo, de duas décadas avarentas de sorriso, mais sofridos que o desejo da vontade. Roubou uma pausa ao tempo. O mar chamou-a e sempre obediente aos impulsos inquestionáveis, rumou a sul para a casa da praia. Uma sobra de passado que agora estava pela primeira vez a sentir sua, naquela chávena de chá, bebido na tranquilidade de um fogo aceso e velas, muitas velas de cheiro que só ela decidiu escolher.
Passeou os olhos por todos os detalhes daquela divisão, a sua preferida, relembrando o momento em que decorou cada pormenor. Sentia-se de novo ali noutro fragmento de espaço agora só seu. Provou sorrisos de memória e reflexão com todas as cores que o expectro lhe oferecia.
O passeio pelo tempo convidou o sono a entrar, devagarinho.
Acordou algumas horas depois com um abrir de olhos preguiçoso a provocar outro sorriso, este, triunfante. Um sonho dentro do sonho. Estava mesmo onde há muito precisava de estar. Consigo própria num lugar só seu.
A chuva tinha-a acordado, na lareira umas brasas tímidas pediam ajuda e eternidade, em sintonia com algumas velas. Levantou-se num pulo decidido a apetecer-lhe o sabor e cheiro de scones. E foi para a cozinha confeccionar o desejo.
Orgulhosa de outro momento só seu, levou um tabuleiro repleto de scones, compotas, chocolate quente e frutos secos para o alpendre. Pôs um gorro na cabeça, forrou a cadeira de bambu com um cobertor macio e enrolou-se nele deliciando-se com o lanche enquanto a chuva caía cada vez mais forte, invejosa daquele momento suculento.
Iria ficar por ali desafiando o tempo, sem pressa de voltar.





