Arrumava velhos discos de vinil e notas em papeis soltos dentro de um saco enorme. Fez-me a passagem de antena e trocámos algumas palavras. Os anos noventa tinham começado por essa altura. Habituámo-nos a esse ritual durante um tempo...pouco importa quanto. O Rogério era a voz maior da estação. Foi ele de resto "o pai" dessa rádio que uns anos antes tinha conquistado um espaço por direito próprio no éter da cidade luz. A voz era rouca, segura, pausada. Os seus poemas surgiam pelo meio de músicas e pensamentos, onde Amália e o fado tinham sempre lugar cativo. Umas das memórias que me ficaram desse tempo eram desenhos soltos, feitos durante cada programa e abandonados no cesto dos papeis, que me habituei desamarrotar a cada vez que me sentava para mais um programa. Alguns anos depois os caminhos afastaram-se. Passaram mais uns anos, não sei quantos, mas amizade perdurou. O Rogério do Carmo escritor, caricaturista, vernáculo, "je m'en fous", polémico, espontaneo, editou mais um livro de poemas. O livro chama-se "Vagas"... lanço ao mar virtual um registo do poeta e amigo. Um abraço Rogério.
...E assim, de repente, passaram vinte anos.

O tempo que ficou atrás das costas parece ter passado mais depressa que este do presente recente. Se todo o tempo falasse sobre o tempo que demora a passar talvez as memórias não tivessem razão de existir.
O Sol ainda se escondia tímido atrás dos prédios e o dia começava como todos os outros, não fosse algum cheiro a incêndio e um ou outro pequeno pedaço de papel a esvoaçar. A curiosidade levou-me a seguir um até o apanhar. Apercebi-me que era um resto de factura queimada quase por completo.
Os carros estavam ligeiramente cobertos por cinza fina.
A caminho de Lisboa vi o fumo e pela rádio fiquei a saber que o Chiado ardia.
Relembro o antes do fogo e o que vivi nesse dia em que não resisti a piorar esse sentimento de perder uma referência de infância, de adolescente e de adulto, ao ir ao local do fogo.
Acho que em todas as memórias temos um cantinho do velho Chiado.
Lisboa nunca mais foi sombria naquela zona... o charme dos edifícios sujos, os pedintes nas calçadas, os carteiristas da baixa, os pregões que ainda relembro, as senhoras a escorregar num ou noutra calçada menos aderente, Valentim de Carvalho, a Custodio Cardoso Pereira, o cheiro a pano dos armazens Grandels, tudo ficou só mesmo na memória que visito sempre que me apetece.
Este Chiado é fresco, é novinho, é simpático, até colorido, mas sem história. Terá outros prós que outro tempo tornou prioridade.
...E assim, de repente, passaram vinte anos.
Comadre Lídia
Segunda-feira, 12,34 h...
O toque dos telefones antigos eram muito mais fácil de definir que o dos novos .
Como é que eu defino o toque alternado de uma melodia monofónica? Claro que é indefinível...adiante.
Imaginemos que é um Triiiiiiiiiiiiiiiim
- Tou!
Silêncio de uns três segundos que em espera telefónica se parecem com uma época glaciar.
- É a comadre Lídia ( em sotaque alentejano ).
- Não não é engano.
Outro silêncio eterno de mais uns dois segundos.
- Comadre Lídia???
- Minha senhora já lhe disse que é engano...
- Tou?
- É engano minha senhora.
- É de casa da comadre Lídia?
- Não não é de casa da comadre Lídia.
- Ahhhh. Pode chamar a comadre Lídia por favor?
- Minha senhora já lhe disse que aqui não há nenhuma comadre Lídia.
- Então pode chamá-la se faz favor?
- Já lhe disse que aqui não mora nenhuma Lídia...a senhora enganou-se no número.
- O senhor desculpe mas eu liguei o número que ela me deu o mês passado quando cá esteve e disse-me para ligar, é que ela hoje faz anos sabe?. Porque é que o
senhor me diz que não pode chamar a comadre Lídia?
- Minha senhora porque aqui não mora nenhuma comadre Lídia. O número deve estar errado.Boa tarde.
- O senhor desculpe mas não me pode dizer qual será o número dela?
O silêncio foi meu...devem ter passado uns cinco segundos.
- Não minha senhora eu nao sei o número da comadre Lídia porque não conheço nenhuma Lídia.
- Ahhhh. Então anganei-me foi o que foi. Queira desculpar.
Ainda é Agosto estão 28 º lá fora e amanhã é terça.
Gesto Marginal
A manhã era de azul Abril e contrariava o ditado popular. O acordeão poluente tirava toda a graça ao cenário. Ao volante os condutores usavam óculos. Algumas condutoras aproveitavam o pára arranca suave para actualizar a cosmética. As roupas clarearam com o tempo, eles sem casaco e elas mais vaporosas.. O Verão está quase aí.
Dois carros mais á frente uma outra condutora também adepta do retoque cosmético, travou de repente um pouco mais à frente querendo passar para a faixa da esquerda sem motivo aparente. Despreocupadamente alheia á impaciência de quem buzinava como se o apitar fosse uma dependência obrigatória. Mas ela esperou que houvesse espaço para mudar de mão e mudou com o espaço que lhe dei. Reparei que não quis passar por cima de um felino de pelo cinzento claro e malhado em tons de branco que jazia ali mesmo na faixa direita da marginal. Parou uns metros mais adiante e pelo retrovisor percebi que tinha saído do carro, retirado o felino para o deixar entre os arbustos da berma.
Curiosamente quem tinha apitado desmesuradamente, ao passar, tinha remetido ao silêncio a buzina impulsivamente sensível a qualquer anormalidade da fuidez automóvel.
A humildade com que ela decidiu retirar o felino da estrada calou todos os apressados matinais.
O gesto da condutora deu-me que pensar... quantos o fariam ali? decidindo rápido o incómodo de sair do carro, sujar as mãos com um animal que nunca viram, com a agravante de perder preciosos lugares no tráfego.
Envergonhado, com aquela lição silenciosa, retomei a condução.
Sem comentários...
A bicha para o multibanco demorava a dispersar. Alguém tinha escolhido pagar facturas antes do cinema. Quase cinco minutos de espera, com a fome da sétima arte a provocar a paciência de qualquer cinéfilo . Alguém se destacava no comportamento impaciente,.. mas passivo. Olhava em redor a cada dez segundos… e depois a cada digito do código.
Alguns minutos depois voltei a vê-lo na outra jornada da compra dos bilhetes e adreços obrigatórios…pipocas e bebidas.
Ela chegou na altura certa para o ajudar com os dois copos e as pipocas. Trocaram um sorriso cumplice.
Ficaram mesmo na fila da frente…Era perceptivel que se tinham conhecido vrtualmente.
Ao intervalo voltei a vê-lo quando entrei na casa de banho… iniciava a caminhada vindo do fundo. O ilustre cinéfilo acabado de satisfazer a necessidade fisiológica saiu em direcção à porta sem passar as mãozinhas por um fiozinho água que fosse…mas o toque no cabelo frente ao espelho foi mais que empenhado. E lá saíu contente e ancioso por regressar ao lugar.
O filme começou com todos nos seus lugares e não resisti a desviar o olhar do ecran para seguir o guião espontâneo da fila da frente.
Os sorrisos continuaram entre ambos e a partilha do resto das pipocas também…
Viva o tempo da inocência.
Cortiça
Gostei da ideia. Ou não fossemos nós o maior produtor mundial de cortiça.
As más linguas dizem que somos peritos em rolhas...mas não passam de más linguas.
Mas um bom vinho...se calhar nem precisa de ser “um bom vinho”... vem em 98% dos casos com um rolha de cortiça...já nem falo do champanhe...com aquele prazer festivo de fazer a rolha saltar. Por muito que os chineses se empenhem o bambu continuará a ser bambu e rolha lusitana a rolhar garrafas que a china também importa.
As linguas boas dizem outras coisas, dizem bem... e fazem bem.
De resto quem é quer namorar alguém com uma lingua má?
Pela lingua se prova, com a lingua se mostra o que por vezes nos apetece dizer de boca calada...quem é que pode dizer-me que nunca deitou a lingua de fora?... porque esse foi o gesto mais propício numa situação onde a palavrinha não saiu mesmo nem a sacarolhas?... Lá está, a cortiça de novo.
E quem não sentiu já aquela sensação da cortiça a impedir qualquer reacção?
Pois é...a cortiça e tudo que ela sugere está em alta de novo.
Gostei da iniciativa dos CTT em criarem um selo original feito em cortiça. E preciso bem... original porque não haverá dois iguais. A textura viva da cortiça faz a diferença em cada milimetro quadrado.
Estou deserto por escrever a alguém por essa via cada vez mais em desuso, ir comprar e lamber um selinho de cortiça para ver como é. Acho que se amoda pega ainda vamos ter provadores de selos um dia destes. Numa visão mais futurista tenho quase a certeza que um dia até os selos vão ter sabores e se organizarão provas de selos.
Pensando bem se calhar nem o vou enviar...fica na minha gaveta do património emocional. Afinal o primeiro, é sempre recordação.
A minha árvore
Pensei-me forte neste tipo de emoções. Mas não consegui travar uma lágrima teimosa.
Nessa manhã acordei com o ruido destrutivo do abate da árvore preferida da minha rua...”a minha árvore” foi assassinada. Era minha ...porque um dia quando ainda recém plantada um camião a atropelou e ficou quase no chão. Ajudei-a até estar de novo na vertical e coloquei-lhe uma tala depois de um dia inteiro tombada...era uma noite fria...e esteve ali naquele pranto que mais ninguém ouviu durante quase 24 horas. Por isso se a salvei, era minha. E depois abandonei-a por uma década apesar de a visitar todos os anos, até voltar para a olhar e lhe dizer bom dia e boa noite a cada acordar e adormecer.
Por um semáforo tudo se pode fazer...até matar árvores...Acho que a partir desse dia fiquei a detestar semáforos e jurei nunca os ajudar se um dia os vir caídos.
Lembro-me de ter pedido ao “assassino remunerado” que me cortasse uma fatia do que dela restava para guardar a mágoa de não mais a ver inteira...mas ele disse que tinha que pedir autorização á câmara...a minha vontade foi desejar que a câmara fosse de gaz e implodisse por inteiro.
Nunca disse a ninguém mas para mim continuas lá minha Árvore... e lá morrerás um dia... mas como a maioria de todas as tuas irmãs...de pé.
Passeio
Hoje passaste de novo por mim sem que te visse.
Senti-te apenas …passar.
É estranho como se pode sentir daquela forma algo que os olhos não vêm… e os sentidos não conseguem testemunhar.
Mas sei que passaste.
Sei, porque o ôdor não me engana…nunca enganou…obediente, submisso, atento e estúpidamente presente mesmo quando fica calado, apenas a tentar segredar-me baixinho e delicadamente o que sabe e me interessa ouvir. Em todas as outras vezes
fica calado e nem a respiração lhe ouço.
Passaste hoje por mim. Sei que passaste.
Não me tocaste no ombro, como de outras vezes, e fugiste antes que me voltasse. Num jogo que por vezes teimas em repetir…só porque sabes que o detesto. Mas sabes jogá-lo tão bem, que um dia, se não mudares as regras nem fizeres batota, o vou aprender para deixares de me provocar assim. Quero ver se o teu passar continua a ser tão próximo e intenso.
Amanhã se voltares…não estarei lá.
Escada...................(Audio)
Está escondida num lugar sereno e longe de se tornar banal como quase todas as escadas.
Esta é quase secreta. Olhando para cada degrau não vejo sinais de uso regular.
Apeteceu-me eternizar o momento da subida. E lembrei-me de um clássico, já de sótão...mas estranhamente actual. "Stairway to Heaven" dos Zep, que segundo rumores vão voltar aos palcos no final do ano. Fica a sugestão para a subida...ou descida.
Subir ou descer?... teremos capacidade de as ver como algo mais que meras escravas dos dois verbos activos?
O que te sugere a escada?
"Estou de passagem"
A ponte torna-me viajante de margens, com as velas do Tejo a roubarem todo o vento. De vidros fechados , deixo o cd de sótão trazer-me aqueles velhos acordes com sabor a 80’s. Relembro “O” concerto…o primeiro… o velho teatro, o som que tanto fumo misturou no princípio de…quase tudo .
O Sol provoca-me um rolar tranquilo, no redescobrir cada esquina. A marginal sorri-me a cada passagem, sempre naquele empenho descomprometido que me traz de volta, obediente à vontade.
Perto do fim, onde a areia, se manifesta ao ritmo do vento numa dança nativa, confundo o asfalto, mar dentro até ao horizonte prateado.
Por ali não há folhas caídas, nem sinais de Outono. O último compasso de silêncio faz-me voltar… Descubro mais uma vez que o prazer maior será sempre o da viagem… O destino voltou a perder.
Avenida "Pôr do Sol"
O copo ainda a gaseificar empurrado pela brisa com que a barra da baía se deixou invadir. Imagino como seria se o silêncio fosse sempre igual a si próprio.
Na irrepreensibilidade deste quase por do Sol de Outubro, os “salpicos” vizinhos,
provocam-me sorrisos aleatórios, tirando-me o gosto do tabulóide semanal, fazendo-me resistir à leitura..
Três idosas, discutem a forma de acender a televisão caso as pilhas do telecomando perderem “força”:
- Ai isso a mim não me incomoda…a primeira coisa que faço quando chego a casa é carregar no botão e tenho sempre televisão. Aquilo tem lá uma catrefada de botões mas eu só carrego no um ou três ou quatro. E nunca mudei as pilhas. Uma vez começou a não funcionar e passadas umas semanas já não dava nada avariou-se e mandei lá o vizinho que também é reformado…ele disse que aquilo era uma avaria normal porque a marca não era grande coisa. Comprou outro coiso daqueles…lá umas peças para o interior lá daquilo e agora funciona que é uma maravilha..
- Apre que o arranjo não saiu barato
- Ah pois isto de fios e electricidade é tudo muito complicado e caro…olhe a minha televisão não tem cá nada disso…era domeu filho…deu-ma quando comprou uma daquelas que se põe na parede …ai agora não me lembro do nome…ah…de plástico.
Outro idoso procura o melhor lugar no que restava de mesas vazias. Depois de experimentar duas cadeiras da superbok e uma da sagres optou pela do ice tea. E a provar-se expert da sociedade de consumo:
- Ó senhor empregado se faz favor (estalando os dedos de mãozinha no ar). Traga-me um compal de sumos vermelhos se não se importa.
- Um compal de quê?
- Daqueles… de sumos vermelhos.
- Desses não temos.
- Então há de quê??
- Temos todos menos desses.
- Então pode ser uma bica cheia pingada em chávena escaldada.
Noutra mesa, a cliente aproveitou a passagem do empregado para também pedir:
- Olhe posso pedir? Era um galão claro, uma tosta mista em pão de forma com pouca manteiga e um pastel de nata, obrigado.
Toda a frase em sotaque do “nordéstchi” frescamente cuspido com alguns perdigotos visíveis na contra luz, que fizeram o empregado afastar-se disfarçadamente cerca de um metro, entre “pedir” e “pastel de nata”.
E a vida continua normalmente na esplanada em ambiente tranquilo de fim de tarde. Para quebrar todo o cenário…Vem não se sabe de onde um puto numa daquelas motos eléctricas e passa pelo corredor entre as mesas. Rápidamente percebi que o objectivo era o parque infantil que se encontrava no lado oposto, tinha escrito nos olhos “Eu quero lá chegar jááááááááá”…no caminho, atira ao chão o casaco pendurado nas costas da cadeira do senhor dos sumos vermelhos, projecta uma das bengalas das senhoras TV que aterra na canela de uma outra e a provar que brasileiro é cheio de ritmo e samba fez com que numa fracção segundo a menina perdigoto com um fio de queijo pendurado ao canto da boca se agarrásse ao galão acabadinho de chegar ao mesmo tempo que media a probabilidade de também o pastel de nata ter o mesmo fim que o casaco e a bengala.
Mas o puto passou, decidido a que o passeio era todo dele, numa corrida desenfreada até à meta mental a que se propôs cortar, sem olhar a meios porque “ Eu sou jovem e o mundo é meu”.
Ainda no rescaldo da situação….aparece a mãe do precoce piloto. Óculos escuros enoooooormes, daqueles tipo, “ adoro esconder-me atrás dos óculos”, 3 revistas debaixo do braço e uma a ser lida em andamento, mala de franjas, calças justinhas e botas western da mesma cor do cabelo “flutuante”:
- DIOGOOOOOOOO JÁ LHE DISSE QUE NÃO QUERO QUE SAIA DO PÉ DE MIM. VENHA CÁ IMEDIATAMENTE FAZ FAVOR.
O Diogo por esta altura já devia estar no pódium.
Gosto destes finais de tarde que atropelam o tédio e dão sururu à boca baixa.
-A conta por favor...
"Voo Nocturno" ...................(audio)
O comboio ía comendo carris. O cheiro a ferro juntava-se ao calor de um Julho sufocante.
Ao fundo da carruagem uma folk provocou-me o olhar. O trovador cantava em inglês num ritmo ragtime contagiante. Algumas músicas depois, e de muito bater o pé, ouço-o cantar em português. Aproximei-me o mais que pude …os ocupantes dessa carruagem e de talves mais metade de outra estavam todos por lá, quase em jeito de serão com fogueira. Uns anos mais tarde, vim a saber que tinha partilhado a viagem com Jorge Palma. E ouvido originais dele em português misturados com histórias de viagem regadas com malte modificado e um cigarrinho sem filtro sempre a rodar.
O último “Voo Nocturno” trouxe-me de novo o sabor desse Verão em 82.
Neste CD há um gosto suave de country, uma pitada electrizante que não ouvia desde o seu projecto Palma’s Gang e uma voz muito mais soft e colocada.
"Geografias".........(audio)
Quando soube do novo trabalho do mago dos sete instrumentos, corri a comprá-lo...só para mim.
“Geografias” sugere-me cenários reais, imaginários, vividos ou desejados, sonoridades que me fazem percorrer uma grande parte desta e de outras geografias..
Estou a ouvi-lo... e vou redescobrindo sons, referências de outras “latitudes”.
E assim de repente numa equação mental, lembro-me, sentado num compasso do “Miradouro”...que passaram quase duas décadas... revejo tembém esse outro tempo, neste que me provoca um sorriso atempado.
De “ Miradouro” além de quase todos os temas, amemoriza-me o vinil distante sugerindo-me o toque de cheiro tão perto. O gesto sensual de colocar a agulha no prato a rodar. E aquele estalar subtil que o uso tornava a cada passagem mais intenso.
Tenho saudades do vinil que me enfeitiçava o olhar quando rodava...naquele rodar constante..quando me fazia perder a noção do tempo...
...perdoa-me blog meu...não te ter dito do que falo.
“Geografias” é o mais recente CD de Júlio Pereira.
Tem gosto de musica popular portuguesa, tem saudades de fado, tem cheiros de África, tem brisas celtas, tem sons novos... e outros que não ficam por gostar.
Obrigado Júlio. Por este “Colares de luz” que me iluminou a pena nestas linhas
E já agora...se puderem conheçam outro dos muitos trabalhos do Júlio... “Miradouro” de 1988.
A Lua antes de ti...
Um Resto de onda suava a areia espelhando o ocaso.
As nuvens fugiam para o vermelho roubadas pela brisa
Naquele gesto tão teu de abraçares o casaco de meia estação
Olhavas o longe franzindo o sobrolho no olhar que te sabia de cor
Paravas o tempo como se o mundo fosse… só nosso
No silêncio calmo que a tempestade escreveu
O Céu despiu-se de negro e provou as estrelas
Nua… aguaste no mar tudo o que tinhas
Água rendida morria suave ali tão perto de ti
Luzes brilhavam ao fundo do outro lado do Tejo
A areia guardou na memória os teus pés descalços
Segui-te nos olhos… fiquei a adivinhar-te os passos
Até ao longe mais longe… que de tão longe
A Lua era antes de ti
Hallelujah...(clic para audio)
Hoje tenho Primavera a bater-me à porta e poesia que com o sono festejam em unísono.
Um dia repleto de Sol e nem uma nuvem por perto.
A poesia que se faz ou sente todos os dias. Ser uma das sete artes
fundamentais tem vantagens assim.
E o sono, em jeito de promessa com que Morpheu presenteia, metódica e ciclicamente, outra noite, todos os dias.
E hoje temos…tu e eu… tudo isto num só dia.
Primavera. Vou deixar-te como sempre, entrar pela porta grande de braços abertos para que te sintas, como sempre, em casa.
Poesia. Hoje vou ler-te, em homenagem a outro, como tantos, dos teus dias.
Sono. Mais logo, à noitinha, antes que o teu dia mude, torno-te homenagem especial, num fechar de olhos.
( a ouvir Jeff Buckley – Hallelujah em versão acústica…Obrigado Luz. O tema é de Leonard Choen, álbum de 84, "Various Positions")
Dilema de...mente
Se sou sim ?
Se sou não ?
Sim sim
Não não
Se não porque diz sim?
Se sim porque diz não?
E assim se diz sim
E assim se diz não
Não me digam sim
Não me digam não
Querem calar o sim
Querem calar o não
Deixem pensar que sim
Deixem pensar que não
Sim? Não?
Se fosse tão fácil um sim
Seria ainda mais um não?
Deixemos aqueles que São
De outro não que diz Sim
E vote-se então o Nim
Sempre que o sim diz não
Desconversas de escada

Hora: 13,10 h , segunda-feira
Metereologia : Manhã de nevoeiro, 12º.
Detalhes: vários, irrelevantes
A porta da rua abre-se e alguém entra.
O chiar de uma caixa do correio a abrir
Um cão ladra.
Outra porta que se abre no 3º.
Vizinha 1 – Vi zi nha
Vizinha 2 – Diga
V1 – Importa-se de ver se tenho aí correio
V2 – Sim sim veio
A vizinha 3 abre a porta do 1º, sai e fecha a porta à chave.
V1 – Veio?
V2 – Sim veio
V1- Quem é que veio?
V2 – O carteiro
V1 – Importa-se de ver aí na caixa se tenho correio?
V2 – Sim D. Margarida, já lhe disse que veio
V3 – O carteiro D.Luisa, ela pergunta se tem correio.
V2- Estava à espera da reforma mas sempre que é para receber chega sempre atrasado.
V1 - Mas veja lá se tenho aí correio a caixa está aberta. E assim escuso de ir aí abaixo.
V2 – O que é que ela diz que não percebo?
V3 –Está a perguntar se tem correio para ela.
V2 . Ah
Vizinha 3 decide de ver ela mesmo se a vizinha do 3º tem correio na caixa.
V3- Olhe… D. Margarida tem aqui duas cartinhas sim.
V1 – Veja lá por favor se alguma é da reforma.
V3 – O que é que ela disse?
V2 – Olhe também não percebi.
V3 – O que é que disse D. Margarida?
V1 – Veja lá se está aí a minha reforma, se faz favor.
V2 – Ela disse qualquer coisa da obra, mas também não percebo.
V1 – DA REFORMA,R E F O R M A veja lá se está aí uma carta DA MINHA PENSÃO.
V3 – Eu não percebo nada do que ela diz…
V2 – Nem eu… O que é que disse vizinha?
V1 –…SE ESTÀ AÌ NA CAIXA UMA CARTA COM A MINHA PENSÂO.
V2 – Ahhhhhhhhh ela pergunta se o carteiro deixou cá cartas ou não.
V3 – Deixou duas cartinhas para si deixou, já tinha dito. Até logo D. Margarida. Ai esta escada faz tanto eco.O que vale é que ainda vamos ouvindo bem. A D. Margarida é que está pior,ooitada.
As vizinhas despedem-se e a do 3º pouco convencida com a eficácia da vizinhança desce a custo até ao R/C abre a caixa e diz para si em voz alta:
V1- O raio das velhas nem um favor sabem fazer…não estão cá cartas nenhumas valha-me Deus. Jarretas…
E sobe de novo para o terceiro sussurrando ais e sons de fazer andar os burros.
...

Nevoeiro é: D. Sebastião, cheiro de nuvens, o vento que se esconde, o querer ver e ele não deixar, é rolar com outro cuidado, é um olhar atento, e sinónimo de final de estação.
Trouxe com ele o frio. Hoje foi dia de mudança. No tempo, na vontade de mudar o tempo sem saber se o outro tempo que virá será tão denso quanto este.
Os barcos ecoam no rio apalpando com sons a calmaria do Tejo.
Nevoeiro é o silêncio de passagem para outro lado. Nevoeiro é tudo o que cabe escondido até decidir ser assim. O nevoeiro é respeitado pelos heróis de todos os mares.
Mas afinal é tão fraco e imprevisível que uma brisa teimosa lhe leva num ápice todo o encanto.
Sempre gostei dele. De o respirar, de o tocar de lhe adivinhar o rumo.
O nevoeiro engana e joga às escondidas com quem o quer perceber.
Marcou as últimas manhãs e hoje quase todo o dia.
Acho que se um dia pudesse ser como ele não queria ser mais nada. Deixar-me levar por uma brisa que me elevasse o estado, tornar a ser nuvem altiva até me transformar em gota mergulhante, penetrar a terra e voltar a ser vapor e de novo água. Matar fogos e sedes, alimentar planícies e faunas. Ser livre de poder voltar a sê-lo de novo. Regressar e fazer mais uma vez todo o caminho de volta. E outra ainda , com mais empenho, com mais vontade de ser nevoeiro. Com mais empenho na vontade.
Se o nevoeiro se for , porque todos eles se vão, que leve com ele tudo o que o quer deixar ficar. Que leve tudo sem rasto. Porque um dia sei que vai voltar e eu abrirei os braços para nele fluir.
Simulação...OK Mulher

Assim lá no iníciozinho entrou-me por um ouvido e seguiu o curso normal do ditado.
Umas vezes depois, achei que o otorrino me fazia um chamamento interior para consulta de urgência. Mas afinal o sentido auditivo estava de boa saúde e recomendava-se.
Até pensei que vinha aí mais uma marca com produtos técnologicamente super finos para aqueles dias em que até as deixamos levar o carro e lhes fazemos as vontades mais secretas como investimento para que o diálogo não se torne monocórdico, tadinho. Mas não, não era nada disso. E muito menos o último grito da medis.
Afinal elas, parece que estão mais seguras que nunca. Será que pela força das circunstâncias é mesmo necessário um seguro especifico para elas? Nunca imaginei que o número de acidentes com elas fosse assim tão motivador do novo conceito, mesmo descontando o facto de não haver nada que não se invente.
Eu sou gajo, e como gajo, tenho, apesar de dizer que não, uma réstia ( que modesto que eu sou) de machismozinho como qualquer ser “gajo” que se preze. Mas daí a não me importar que se invente um seguro para dizer-lhes que agora se podem sentir mais seguras é um pouco má onda.
O produto é excelente para as famílias de dois ou mais elementos em que o carro é tão disputado como o último “mon chérie” depois da festa acabada. Os gajos tem agora uma excelente desculpa para não emprestar mais o carro às caras metade, ou quartos, ou terços que sejam.
- Não tens o ok teleseguro mulher? Então vais a pé.
Imagino frases como esta. Como dádivas ao interesse deles, gajos.
E o MDM está onde? E as feministas fazem o quê? E as deputadas ficam caladas? E as outras que não se enquadram em nenhuma destas, cruzam os braços? E ainda uma parte das restantes que guiam infinitamente melhor que eles?E a DECO? E as organizações que pugnam pela igualdade de sexos? E a Marta, continua impávida a atender o telefone da empresa? E, e, e então não se faz nada? E se fosse mulher fazia greve.
-Alô? Marta? Olá, chamo-me Adulcindo, sou misógeno, tenho um tique nervoso quando espirro e uma casa no Meco. Há algum produto específico para mim?
PS- O que gosto mais no site, é tratarem as clientes no masculino, mesmo na simulação…um must.
Imagens

Um dia, o Tejo molhou-me o querer e decidi-me.
Lembro-me de já “armado” explorar as arcadas do Terreiro do Paço e tudo o que cabia na minha única 50mm. Os carros ainda por lá se quedavam na altura. Era por ali que tinha decidido ir.
Foi paixão por uma década. Fez-me viver, sonhar, sorrir, gostar, sentir, que era a melhor profissão do mundo.
“Matar” o momento quando se pretende vivo, contar o que outros querem esconder, falar sem pronunciar um som, gritar com a maior arma do silêncio.
Noutra dimensão da mesma área, deixar as luzes pintar de negro as sombras. Fazendo brincar os corpos em telas de cor neutra. E depois oferecê-los de novo à vida num passo de mãos e química elementar.
Com o propósito de fazer gostar, de ter vontade de, sugerir tudo o que os olhos não vêm mas que a vontade comanda.
Ou ainda, para tantos outros, naturezas mortas ou imagens para plasticamente se gastarem ao sabor de todos os dias úteis, acabando um dia numa gaveta ao lado de números obstinados que mudavam de cor a cada final de mês.
Revi tudo, num incrível contraste de uma terra devota no Gerês.
Havia uma mas menos cuidada no mesmo Terreiro do Paço. Há tantos anos atrás que perdi a noção de quantos.
Imaginei tudo o que passou naquele diafragma. No jeito modesto com que se envergonha dos cliques e outros ruídos digitais, levando-lhe para longe aqueles pedaços de alma que tão poucos entendem.
