A bicha para o multibanco demorava a dispersar. Alguém tinha escolhido pagar facturas antes do cinema. Quase cinco minutos de espera, com a fome da sétima arte a provocar a paciência de qualquer cinéfilo . Alguém se destacava no comportamento impaciente,.. mas passivo. Olhava em redor a cada dez segundos… e depois a cada digito do código.
Alguns minutos depois voltei a vê-lo na outra jornada da compra dos bilhetes e adreços obrigatórios…pipocas e bebidas.
Ela chegou na altura certa para o ajudar com os dois copos e as pipocas. Trocaram um sorriso cumplice.
Ficaram mesmo na fila da frente…Era perceptivel que se tinham conhecido vrtualmente.
Ao intervalo voltei a vê-lo quando entrei na casa de banho… iniciava a caminhada vindo do fundo. O ilustre cinéfilo acabado de satisfazer a necessidade fisiológica saiu em direcção à porta sem passar as mãozinhas por um fiozinho água que fosse…mas o toque no cabelo frente ao espelho foi mais que empenhado. E lá saíu contente e ancioso por regressar ao lugar.
O filme começou com todos nos seus lugares e não resisti a desviar o olhar do ecran para seguir o guião espontâneo da fila da frente.
Os sorrisos continuaram entre ambos e a partilha do resto das pipocas também…
Viva o tempo da inocência.
Sem comentários...
Cortiça
Gostei da ideia. Ou não fossemos nós o maior produtor mundial de cortiça.
As más linguas dizem que somos peritos em rolhas...mas não passam de más linguas.
Mas um bom vinho...se calhar nem precisa de ser “um bom vinho”... vem em 98% dos casos com um rolha de cortiça...já nem falo do champanhe...com aquele prazer festivo de fazer a rolha saltar. Por muito que os chineses se empenhem o bambu continuará a ser bambu e rolha lusitana a rolhar garrafas que a china também importa.
As linguas boas dizem outras coisas, dizem bem... e fazem bem.
De resto quem é quer namorar alguém com uma lingua má?
Pela lingua se prova, com a lingua se mostra o que por vezes nos apetece dizer de boca calada...quem é que pode dizer-me que nunca deitou a lingua de fora?... porque esse foi o gesto mais propício numa situação onde a palavrinha não saiu mesmo nem a sacarolhas?... Lá está, a cortiça de novo.
E quem não sentiu já aquela sensação da cortiça a impedir qualquer reacção?
Pois é...a cortiça e tudo que ela sugere está em alta de novo.
Gostei da iniciativa dos CTT em criarem um selo original feito em cortiça. E preciso bem... original porque não haverá dois iguais. A textura viva da cortiça faz a diferença em cada milimetro quadrado.
Estou deserto por escrever a alguém por essa via cada vez mais em desuso, ir comprar e lamber um selinho de cortiça para ver como é. Acho que se amoda pega ainda vamos ter provadores de selos um dia destes. Numa visão mais futurista tenho quase a certeza que um dia até os selos vão ter sabores e se organizarão provas de selos.
Pensando bem se calhar nem o vou enviar...fica na minha gaveta do património emocional. Afinal o primeiro, é sempre recordação.
A minha árvore
Pensei-me forte neste tipo de emoções. Mas não consegui travar uma lágrima teimosa.
Nessa manhã acordei com o ruido destrutivo do abate da árvore preferida da minha rua...”a minha árvore” foi assassinada. Era minha ...porque um dia quando ainda recém plantada um camião a atropelou e ficou quase no chão. Ajudei-a até estar de novo na vertical e coloquei-lhe uma tala depois de um dia inteiro tombada...era uma noite fria...e esteve ali naquele pranto que mais ninguém ouviu durante quase 24 horas. Por isso se a salvei, era minha. E depois abandonei-a por uma década apesar de a visitar todos os anos, até voltar para a olhar e lhe dizer bom dia e boa noite a cada acordar e adormecer.
Por um semáforo tudo se pode fazer...até matar árvores...Acho que a partir desse dia fiquei a detestar semáforos e jurei nunca os ajudar se um dia os vir caídos.
Lembro-me de ter pedido ao “assassino remunerado” que me cortasse uma fatia do que dela restava para guardar a mágoa de não mais a ver inteira...mas ele disse que tinha que pedir autorização á câmara...a minha vontade foi desejar que a câmara fosse de gaz e implodisse por inteiro.
Nunca disse a ninguém mas para mim continuas lá minha Árvore... e lá morrerás um dia... mas como a maioria de todas as tuas irmãs...de pé.
Passeio
Hoje passaste de novo por mim sem que te visse.
Senti-te apenas …passar.
É estranho como se pode sentir daquela forma algo que os olhos não vêm… e os sentidos não conseguem testemunhar.
Mas sei que passaste.
Sei, porque o ôdor não me engana…nunca enganou…obediente, submisso, atento e estúpidamente presente mesmo quando fica calado, apenas a tentar segredar-me baixinho e delicadamente o que sabe e me interessa ouvir. Em todas as outras vezes
fica calado e nem a respiração lhe ouço.
Passaste hoje por mim. Sei que passaste.
Não me tocaste no ombro, como de outras vezes, e fugiste antes que me voltasse. Num jogo que por vezes teimas em repetir…só porque sabes que o detesto. Mas sabes jogá-lo tão bem, que um dia, se não mudares as regras nem fizeres batota, o vou aprender para deixares de me provocar assim. Quero ver se o teu passar continua a ser tão próximo e intenso.
Amanhã se voltares…não estarei lá.
Escada...................(Audio)
Está escondida num lugar sereno e longe de se tornar banal como quase todas as escadas.
Esta é quase secreta. Olhando para cada degrau não vejo sinais de uso regular.
Apeteceu-me eternizar o momento da subida. E lembrei-me de um clássico, já de sótão...mas estranhamente actual. "Stairway to Heaven" dos Zep, que segundo rumores vão voltar aos palcos no final do ano. Fica a sugestão para a subida...ou descida.
Subir ou descer?... teremos capacidade de as ver como algo mais que meras escravas dos dois verbos activos?
O que te sugere a escada?
"Estou de passagem"
A ponte torna-me viajante de margens, com as velas do Tejo a roubarem todo o vento. De vidros fechados , deixo o cd de sótão trazer-me aqueles velhos acordes com sabor a 80’s. Relembro “O” concerto…o primeiro… o velho teatro, o som que tanto fumo misturou no princípio de…quase tudo .
O Sol provoca-me um rolar tranquilo, no redescobrir cada esquina. A marginal sorri-me a cada passagem, sempre naquele empenho descomprometido que me traz de volta, obediente à vontade.
Perto do fim, onde a areia, se manifesta ao ritmo do vento numa dança nativa, confundo o asfalto, mar dentro até ao horizonte prateado.
Por ali não há folhas caídas, nem sinais de Outono. O último compasso de silêncio faz-me voltar… Descubro mais uma vez que o prazer maior será sempre o da viagem… O destino voltou a perder.
Avenida "Pôr do Sol"
O copo ainda a gaseificar empurrado pela brisa com que a barra da baía se deixou invadir. Imagino como seria se o silêncio fosse sempre igual a si próprio.
Na irrepreensibilidade deste quase por do Sol de Outubro, os “salpicos” vizinhos,
provocam-me sorrisos aleatórios, tirando-me o gosto do tabulóide semanal, fazendo-me resistir à leitura..
Três idosas, discutem a forma de acender a televisão caso as pilhas do telecomando perderem “força”:
- Ai isso a mim não me incomoda…a primeira coisa que faço quando chego a casa é carregar no botão e tenho sempre televisão. Aquilo tem lá uma catrefada de botões mas eu só carrego no um ou três ou quatro. E nunca mudei as pilhas. Uma vez começou a não funcionar e passadas umas semanas já não dava nada avariou-se e mandei lá o vizinho que também é reformado…ele disse que aquilo era uma avaria normal porque a marca não era grande coisa. Comprou outro coiso daqueles…lá umas peças para o interior lá daquilo e agora funciona que é uma maravilha..
- Apre que o arranjo não saiu barato
- Ah pois isto de fios e electricidade é tudo muito complicado e caro…olhe a minha televisão não tem cá nada disso…era domeu filho…deu-ma quando comprou uma daquelas que se põe na parede …ai agora não me lembro do nome…ah…de plástico.
Outro idoso procura o melhor lugar no que restava de mesas vazias. Depois de experimentar duas cadeiras da superbok e uma da sagres optou pela do ice tea. E a provar-se expert da sociedade de consumo:
- Ó senhor empregado se faz favor (estalando os dedos de mãozinha no ar). Traga-me um compal de sumos vermelhos se não se importa.
- Um compal de quê?
- Daqueles… de sumos vermelhos.
- Desses não temos.
- Então há de quê??
- Temos todos menos desses.
- Então pode ser uma bica cheia pingada em chávena escaldada.
Noutra mesa, a cliente aproveitou a passagem do empregado para também pedir:
- Olhe posso pedir? Era um galão claro, uma tosta mista em pão de forma com pouca manteiga e um pastel de nata, obrigado.
Toda a frase em sotaque do “nordéstchi” frescamente cuspido com alguns perdigotos visíveis na contra luz, que fizeram o empregado afastar-se disfarçadamente cerca de um metro, entre “pedir” e “pastel de nata”.
E a vida continua normalmente na esplanada em ambiente tranquilo de fim de tarde. Para quebrar todo o cenário…Vem não se sabe de onde um puto numa daquelas motos eléctricas e passa pelo corredor entre as mesas. Rápidamente percebi que o objectivo era o parque infantil que se encontrava no lado oposto, tinha escrito nos olhos “Eu quero lá chegar jááááááááá”…no caminho, atira ao chão o casaco pendurado nas costas da cadeira do senhor dos sumos vermelhos, projecta uma das bengalas das senhoras TV que aterra na canela de uma outra e a provar que brasileiro é cheio de ritmo e samba fez com que numa fracção segundo a menina perdigoto com um fio de queijo pendurado ao canto da boca se agarrásse ao galão acabadinho de chegar ao mesmo tempo que media a probabilidade de também o pastel de nata ter o mesmo fim que o casaco e a bengala.
Mas o puto passou, decidido a que o passeio era todo dele, numa corrida desenfreada até à meta mental a que se propôs cortar, sem olhar a meios porque “ Eu sou jovem e o mundo é meu”.
Ainda no rescaldo da situação….aparece a mãe do precoce piloto. Óculos escuros enoooooormes, daqueles tipo, “ adoro esconder-me atrás dos óculos”, 3 revistas debaixo do braço e uma a ser lida em andamento, mala de franjas, calças justinhas e botas western da mesma cor do cabelo “flutuante”:
- DIOGOOOOOOOO JÁ LHE DISSE QUE NÃO QUERO QUE SAIA DO PÉ DE MIM. VENHA CÁ IMEDIATAMENTE FAZ FAVOR.
O Diogo por esta altura já devia estar no pódium.
Gosto destes finais de tarde que atropelam o tédio e dão sururu à boca baixa.
-A conta por favor...
"Voo Nocturno" ...................(audio)
O comboio ía comendo carris. O cheiro a ferro juntava-se ao calor de um Julho sufocante.
Ao fundo da carruagem uma folk provocou-me o olhar. O trovador cantava em inglês num ritmo ragtime contagiante. Algumas músicas depois, e de muito bater o pé, ouço-o cantar em português. Aproximei-me o mais que pude …os ocupantes dessa carruagem e de talves mais metade de outra estavam todos por lá, quase em jeito de serão com fogueira. Uns anos mais tarde, vim a saber que tinha partilhado a viagem com Jorge Palma. E ouvido originais dele em português misturados com histórias de viagem regadas com malte modificado e um cigarrinho sem filtro sempre a rodar.
O último “Voo Nocturno” trouxe-me de novo o sabor desse Verão em 82.
Neste CD há um gosto suave de country, uma pitada electrizante que não ouvia desde o seu projecto Palma’s Gang e uma voz muito mais soft e colocada.
"Geografias".........(audio)
Quando soube do novo trabalho do mago dos sete instrumentos, corri a comprá-lo...só para mim.
“Geografias” sugere-me cenários reais, imaginários, vividos ou desejados, sonoridades que me fazem percorrer uma grande parte desta e de outras geografias..
Estou a ouvi-lo... e vou redescobrindo sons, referências de outras “latitudes”.
E assim de repente numa equação mental, lembro-me, sentado num compasso do “Miradouro”...que passaram quase duas décadas... revejo tembém esse outro tempo, neste que me provoca um sorriso atempado.
De “ Miradouro” além de quase todos os temas, amemoriza-me o vinil distante sugerindo-me o toque de cheiro tão perto. O gesto sensual de colocar a agulha no prato a rodar. E aquele estalar subtil que o uso tornava a cada passagem mais intenso.
Tenho saudades do vinil que me enfeitiçava o olhar quando rodava...naquele rodar constante..quando me fazia perder a noção do tempo...
...perdoa-me blog meu...não te ter dito do que falo.
“Geografias” é o mais recente CD de Júlio Pereira.
Tem gosto de musica popular portuguesa, tem saudades de fado, tem cheiros de África, tem brisas celtas, tem sons novos... e outros que não ficam por gostar.
Obrigado Júlio. Por este “Colares de luz” que me iluminou a pena nestas linhas
E já agora...se puderem conheçam outro dos muitos trabalhos do Júlio... “Miradouro” de 1988.
A Lua antes de ti...
Um Resto de onda suava a areia espelhando o ocaso.
As nuvens fugiam para o vermelho roubadas pela brisa
Naquele gesto tão teu de abraçares o casaco de meia estação
Olhavas o longe franzindo o sobrolho no olhar que te sabia de cor
Paravas o tempo como se o mundo fosse… só nosso
No silêncio calmo que a tempestade escreveu
O Céu despiu-se de negro e provou as estrelas
Nua… aguaste no mar tudo o que tinhas
Água rendida morria suave ali tão perto de ti
Luzes brilhavam ao fundo do outro lado do Tejo
A areia guardou na memória os teus pés descalços
Segui-te nos olhos… fiquei a adivinhar-te os passos
Até ao longe mais longe… que de tão longe
A Lua era antes de ti
Hallelujah...(clic para audio)
Hoje tenho Primavera a bater-me à porta e poesia que com o sono festejam em unísono.
Um dia repleto de Sol e nem uma nuvem por perto.
A poesia que se faz ou sente todos os dias. Ser uma das sete artes
fundamentais tem vantagens assim.
E o sono, em jeito de promessa com que Morpheu presenteia, metódica e ciclicamente, outra noite, todos os dias.
E hoje temos…tu e eu… tudo isto num só dia.
Primavera. Vou deixar-te como sempre, entrar pela porta grande de braços abertos para que te sintas, como sempre, em casa.
Poesia. Hoje vou ler-te, em homenagem a outro, como tantos, dos teus dias.
Sono. Mais logo, à noitinha, antes que o teu dia mude, torno-te homenagem especial, num fechar de olhos.
( a ouvir Jeff Buckley – Hallelujah em versão acústica…Obrigado Luz. O tema é de Leonard Choen, álbum de 84, "Various Positions")
Dilema de...mente
Se sou sim ?
Se sou não ?
Sim sim
Não não
Se não porque diz sim?
Se sim porque diz não?
E assim se diz sim
E assim se diz não
Não me digam sim
Não me digam não
Querem calar o sim
Querem calar o não
Deixem pensar que sim
Deixem pensar que não
Sim? Não?
Se fosse tão fácil um sim
Seria ainda mais um não?
Deixemos aqueles que São
De outro não que diz Sim
E vote-se então o Nim
Sempre que o sim diz não
Desconversas de escada

Hora: 13,10 h , segunda-feira
Metereologia : Manhã de nevoeiro, 12º.
Detalhes: vários, irrelevantes
A porta da rua abre-se e alguém entra.
O chiar de uma caixa do correio a abrir
Um cão ladra.
Outra porta que se abre no 3º.
Vizinha 1 – Vi zi nha
Vizinha 2 – Diga
V1 – Importa-se de ver se tenho aí correio
V2 – Sim sim veio
A vizinha 3 abre a porta do 1º, sai e fecha a porta à chave.
V1 – Veio?
V2 – Sim veio
V1- Quem é que veio?
V2 – O carteiro
V1 – Importa-se de ver aí na caixa se tenho correio?
V2 – Sim D. Margarida, já lhe disse que veio
V3 – O carteiro D.Luisa, ela pergunta se tem correio.
V2- Estava à espera da reforma mas sempre que é para receber chega sempre atrasado.
V1 - Mas veja lá se tenho aí correio a caixa está aberta. E assim escuso de ir aí abaixo.
V2 – O que é que ela diz que não percebo?
V3 –Está a perguntar se tem correio para ela.
V2 . Ah
Vizinha 3 decide de ver ela mesmo se a vizinha do 3º tem correio na caixa.
V3- Olhe… D. Margarida tem aqui duas cartinhas sim.
V1 – Veja lá por favor se alguma é da reforma.
V3 – O que é que ela disse?
V2 – Olhe também não percebi.
V3 – O que é que disse D. Margarida?
V1 – Veja lá se está aí a minha reforma, se faz favor.
V2 – Ela disse qualquer coisa da obra, mas também não percebo.
V1 – DA REFORMA,R E F O R M A veja lá se está aí uma carta DA MINHA PENSÃO.
V3 – Eu não percebo nada do que ela diz…
V2 – Nem eu… O que é que disse vizinha?
V1 –…SE ESTÀ AÌ NA CAIXA UMA CARTA COM A MINHA PENSÂO.
V2 – Ahhhhhhhhh ela pergunta se o carteiro deixou cá cartas ou não.
V3 – Deixou duas cartinhas para si deixou, já tinha dito. Até logo D. Margarida. Ai esta escada faz tanto eco.O que vale é que ainda vamos ouvindo bem. A D. Margarida é que está pior,ooitada.
As vizinhas despedem-se e a do 3º pouco convencida com a eficácia da vizinhança desce a custo até ao R/C abre a caixa e diz para si em voz alta:
V1- O raio das velhas nem um favor sabem fazer…não estão cá cartas nenhumas valha-me Deus. Jarretas…
E sobe de novo para o terceiro sussurrando ais e sons de fazer andar os burros.
...

Nevoeiro é: D. Sebastião, cheiro de nuvens, o vento que se esconde, o querer ver e ele não deixar, é rolar com outro cuidado, é um olhar atento, e sinónimo de final de estação.
Trouxe com ele o frio. Hoje foi dia de mudança. No tempo, na vontade de mudar o tempo sem saber se o outro tempo que virá será tão denso quanto este.
Os barcos ecoam no rio apalpando com sons a calmaria do Tejo.
Nevoeiro é o silêncio de passagem para outro lado. Nevoeiro é tudo o que cabe escondido até decidir ser assim. O nevoeiro é respeitado pelos heróis de todos os mares.
Mas afinal é tão fraco e imprevisível que uma brisa teimosa lhe leva num ápice todo o encanto.
Sempre gostei dele. De o respirar, de o tocar de lhe adivinhar o rumo.
O nevoeiro engana e joga às escondidas com quem o quer perceber.
Marcou as últimas manhãs e hoje quase todo o dia.
Acho que se um dia pudesse ser como ele não queria ser mais nada. Deixar-me levar por uma brisa que me elevasse o estado, tornar a ser nuvem altiva até me transformar em gota mergulhante, penetrar a terra e voltar a ser vapor e de novo água. Matar fogos e sedes, alimentar planícies e faunas. Ser livre de poder voltar a sê-lo de novo. Regressar e fazer mais uma vez todo o caminho de volta. E outra ainda , com mais empenho, com mais vontade de ser nevoeiro. Com mais empenho na vontade.
Se o nevoeiro se for , porque todos eles se vão, que leve com ele tudo o que o quer deixar ficar. Que leve tudo sem rasto. Porque um dia sei que vai voltar e eu abrirei os braços para nele fluir.
Simulação...OK Mulher

Assim lá no iníciozinho entrou-me por um ouvido e seguiu o curso normal do ditado.
Umas vezes depois, achei que o otorrino me fazia um chamamento interior para consulta de urgência. Mas afinal o sentido auditivo estava de boa saúde e recomendava-se.
Até pensei que vinha aí mais uma marca com produtos técnologicamente super finos para aqueles dias em que até as deixamos levar o carro e lhes fazemos as vontades mais secretas como investimento para que o diálogo não se torne monocórdico, tadinho. Mas não, não era nada disso. E muito menos o último grito da medis.
Afinal elas, parece que estão mais seguras que nunca. Será que pela força das circunstâncias é mesmo necessário um seguro especifico para elas? Nunca imaginei que o número de acidentes com elas fosse assim tão motivador do novo conceito, mesmo descontando o facto de não haver nada que não se invente.
Eu sou gajo, e como gajo, tenho, apesar de dizer que não, uma réstia ( que modesto que eu sou) de machismozinho como qualquer ser “gajo” que se preze. Mas daí a não me importar que se invente um seguro para dizer-lhes que agora se podem sentir mais seguras é um pouco má onda.
O produto é excelente para as famílias de dois ou mais elementos em que o carro é tão disputado como o último “mon chérie” depois da festa acabada. Os gajos tem agora uma excelente desculpa para não emprestar mais o carro às caras metade, ou quartos, ou terços que sejam.
- Não tens o ok teleseguro mulher? Então vais a pé.
Imagino frases como esta. Como dádivas ao interesse deles, gajos.
E o MDM está onde? E as feministas fazem o quê? E as deputadas ficam caladas? E as outras que não se enquadram em nenhuma destas, cruzam os braços? E ainda uma parte das restantes que guiam infinitamente melhor que eles?E a DECO? E as organizações que pugnam pela igualdade de sexos? E a Marta, continua impávida a atender o telefone da empresa? E, e, e então não se faz nada? E se fosse mulher fazia greve.
-Alô? Marta? Olá, chamo-me Adulcindo, sou misógeno, tenho um tique nervoso quando espirro e uma casa no Meco. Há algum produto específico para mim?
PS- O que gosto mais no site, é tratarem as clientes no masculino, mesmo na simulação…um must.
Imagens

Um dia, o Tejo molhou-me o querer e decidi-me.
Lembro-me de já “armado” explorar as arcadas do Terreiro do Paço e tudo o que cabia na minha única 50mm. Os carros ainda por lá se quedavam na altura. Era por ali que tinha decidido ir.
Foi paixão por uma década. Fez-me viver, sonhar, sorrir, gostar, sentir, que era a melhor profissão do mundo.
“Matar” o momento quando se pretende vivo, contar o que outros querem esconder, falar sem pronunciar um som, gritar com a maior arma do silêncio.
Noutra dimensão da mesma área, deixar as luzes pintar de negro as sombras. Fazendo brincar os corpos em telas de cor neutra. E depois oferecê-los de novo à vida num passo de mãos e química elementar.
Com o propósito de fazer gostar, de ter vontade de, sugerir tudo o que os olhos não vêm mas que a vontade comanda.
Ou ainda, para tantos outros, naturezas mortas ou imagens para plasticamente se gastarem ao sabor de todos os dias úteis, acabando um dia numa gaveta ao lado de números obstinados que mudavam de cor a cada final de mês.
Revi tudo, num incrível contraste de uma terra devota no Gerês.
Havia uma mas menos cuidada no mesmo Terreiro do Paço. Há tantos anos atrás que perdi a noção de quantos.
Imaginei tudo o que passou naquele diafragma. No jeito modesto com que se envergonha dos cliques e outros ruídos digitais, levando-lhe para longe aqueles pedaços de alma que tão poucos entendem.
SiMi

Tinhas tranças noutro tempo. Sabia-te de cor os passos. Sentia-te chegar mesmo sem ver. Adivinhava-te o mote ao primeiro olhar. Sabia quase por cada teu respirar, que peça tinhas escolhido. Perfumavas notas, que teus dedos tocavam, num sustenido tempo que a meio tom se perdia. Trocavas com ele de olhos fechados, tantos abertos abraços que quase me fazias perder de ciúme. Não fosse ele passivo e submisso e perderia o jeito, o mesmo que me apontavas com aquele sorriso bemol. Em allegro te ouvia tocando-o, passeando-te, sentindo-o, harmonizando num estudo infinito. Com o prestíssimo da minha paciência a nunca atingir aquela última oitava. E os teus olhos sempre fechados atentos à pauta que te desfilava por dentro, desafiando-me num tempo rubato. Sabias o que me provocava, sabias o que me alteravas, sabias tudo mesmo debruçada sobre ele ainda e sempre de olhos fechados. E o tempo metrónomo galopando minutos que qualquer relógio não saberia contar.
De novo o tal sorriso agora menos visível mas que eu via, acompanhando o teu voltar ao tempo primo até te morrerem os dedos em grave. Voltavas, acompanhando-o de mão dada até ao silêncio das cordas, abrindo os olhos.
E eu esquecia mais uma vez toda a vossa eterna pausa cúmplice, que no durante me desafinava .
Ganhavas-me de novo e rendido, à forma como te despedias dele, encerrando o acto, no gesto lento de uma quase última vez.
Foi aqui que pela primeira vez te vi, com um vestido branco de laço, desconhecendo o mundo e as teclas pretas do teu primeiro palco.
Depois, também aqui, vi terminares outras escalas completas a preto e branco e contornares todo o espectro visível e seu oposto, abafadas no grave pelo aplauso da sala.
Hoje, já não há tranças, nem passos. Não te sinto chegar, nem o que vais dizer… nem tocar.
De ti, ficou ele. Calado, desafinado, baço, carunchento e esquecido a um canto.
E o tal ciúme que de novo me invade, desta vez em silêncio. Invejo-o mais uma vez.
Não consigo atingir a dimensão deste tempo. Se sonho um futuro, ou revejo um passado. Ou se tudo imagino, baralhando compassos, notas e toda a peça.
Talvez este silêncio seja apenas uma pausa que contagiou o tempo de agora. Ou só um compasso numa partitura de final glorificado?
Espero outro tanto, mas nada. Não há público, nem luzes, nem vermelhos. Nem sequer pauta ou cheiro de “conserto”.
Desconcertante o cenário… sem diapasão por perto.
S. Martinho, Setembro, 2006
Contra o tempo rolar
Outono de sombras calçado
Amarrar olhos ao mar
Amarras imaginar
Com reflexos escrever
Redondo o caminhar
Caminhos fingir
Nova rota encontrar
Ao cume subir
A muralhas chegar
Contrastes desenhar
No ocaso ficar
Rentrée

…e então acho que isto não se faz… Dizia uma loira que alguns minutos depois percebi que era a Florbela Queirós. Estavam num cenário cor de rosa que vim a depreender que era no programa diário da Fátima Lopes. A menos decotada das duas homónimas.
O tema de conversa, durante, imagino que outros 10 minutos, era a boca da Lili Caneças, paparazzada, descompostinha e despintada. Por alguns minutos achei que me ía tornar num fervoroso adepto da Pink Press…E eles a dissertarem sobre o assunto …Se o cenário fosse mais formal com umas gravatinhas e madeira tratada achava que poderia muiot bem ser uma sessão parlamentar da cuscovelhice .
E depois o tema mudou e um gajo que foi porta voz do Benfica também lá estava…e eu que não sabia que os reformados do glorioso arranjavam tachos desbotados. Ora vejamos, primeiro vermelho depois cor de rosa e a seguir o branco da senilidade ali mesmo às portinhas do céu…afinal a lei do silogismo até que ganha forma com exemplos assim.
A festa do Castelo Branco, foi o tema seguinte…animados, eles e elas dissertavam sobre o êxito da dita, para a qual alguns não tinham sido convidados, provocando aos ausentes presentes o escapar opinativo no comentário. Porque alguém disse à Maya ( não sei se é com y ou com um i… as minhas desculpas senhora D. May(i)a) que por volta das 4 da manhã houve na vizinhança descontente com o barulho de farra, quem atirasse ovos para o jardim florido do senhor com nome de cidade…então mas ela não adivinhou isso? Nem nas cartas? Nem nos astros? Nem nas pedras? Decididamente, serei sempre um leigo nas artes adivinhatórias…
Depois um moço novo que lá estava mas com cabelo rebelde e também assim a dar para o partido do outro com nome de terra interior começou a dissertar sobre se a festa tinha ou não motivo para ter cobertura mediática…ao que o ex vermelho e agora cor de rosa, defendeu com unhas e dentes. Afinal era um dos convidados mas saiu mais cedo antes dos ovos terem sido lançados. Cá pra mim isto são tradições dos ricos e o povinho é claro que nunca compreende estas modernices do jet7.
…não foi nada disso que aconteceu o que me disse o Castelo Branco foi que passou um carro e atirou os ovos lá para dentro, não foi nenhum vizinho…disse alguém no mesmo cenário cor de rosa…
A mim ninguém me tira da ideia que a SIC com todos os seus técnicos de imagem e comunicação …talvez importados das mais altas escolas do Rio ou ribeiro…descobriram uma forma colorida de fazer publicidade aos ovos, sem entrar na cota permitida por lei. ..só pode ser isso.
Acho que vou de férias outra vez…ou então atiro o comando da televisão para a capoeira da vizinha do rés-do-chão.
Hoje também estão 40 graus…deve ser por isso
Valha-me Nossa Senhora Sua Homónima

TRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIMMMMMMMMMMMMMMM
O dia estava a ser daqueles para esquecer. E ainda era terça-feira.
- Boa tarde. Estou a falar-lhe em nome da EDP…
Pensei logo que me tinham violado de novo as facturas da caixa do correio e me iam cortar a luz.
- Posso falar com o titular do contrato EDP?
- Pode
- É o senhor?
- Sou
- Pode dizer-me o seu nome?
- Posso.
E dali para a frente foi o debitar do costume durante alguns segundos…
- A EDP está a oferecer aos seus clientes um novo produto composto por serviços de que pode usufruir gratuitamente durante dois meses...
Fixe, pensei que me iam dar Kilowatts à bórliu…Até porque não estava a ver uma oferta muito diferente…Se os operadores de télémóveis dão télémoveis, acessórios, ou minutos e as marcas de automóveis dão garantias e gasolina e equipamento e os supermecados dão vales de compras…A EDP só me poderia dar Kilowatts…até porque não me serviria de nada oferecerem-me como prova de fidelidade um poste usado…alegando que a oferta de valor inestimável seria dentro de anos parte integrante do valioso espólio arqueológico industrial de uma época, em troca de mais 10 anos como cliente … pensei logo que eles já estão mortinhos de medo da concorrência espanhola e a reciclagem de postes eléctricos está pelas horas da amargura.
- …Assim tenho o prazer de lhe propor que por menos de dez euros por mês possa usufruir em caso de hospitalização, de uma quantia por cada dia de internamento…
Não acredito. O que é que a hospitalização tem a ver com a EDP? Será que isto é indicio de que as caixas vão desatar todas a explodir como aconteceu há uns anos… ou que a base das torres de alta tensão estão precocemente a enferrujar e eles que se querem prevenir, lançam isto? Será que estou mesmo acordado? Será que apanhei um choque eléctrico quando liguei a máquina dos batidos e estou a delirar? Será que tenho luz? Será que não tenho e que o corte me desligou?
- Mas não é só…
Continuava o Sr. Papagaio orgulhoso dos seus índices de fósforo e da pujança com que me bombardeava. Quase que estive para dizer logo que sim…que comprava que aderia…até porque naquele ritmo iria precisar mesmo.
- …Posso também dizer-lhe que no caso de desemprego a assinatura deste produto lhe assegura…
Chegaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa…não me lembro se disse ou se só pensei.
Fiquei com a sensação de que um choque de 220 V teria provavelmente um efeito menos nocivo.
E não resisti a perguntar:
- Desculpe mas…Então a EDP agora também vende seguros? Pretende-se um alargamento a outras áreas de actividade? E já agora porque não também um supermercado com kilowatts avulso? Uma marca de automóveis eléctricos? Comunicações electrizantes?
Ele riu-se…
- É que a EDP quer prestar ainda um serviço mais completo aos seus clientes daí este novo produto.
Concluíu, demorando quase tanto tempo nesta frase como em todo o outro discurso decorado.
- Pois mas não estou interessado, obrigado.
- Mas posso perguntar o motivo?
- Pode…
- Então qual é o motivo?
- Já tenho um seguro eficaz.
- Mas sabe que aderindo pode usufruir durante dois meses sem nenhum custo adicional?
- Sim já me tinha dito.
- E mesmo assim não quer aderir?
- Não, muito obrigado.
- Muito bem. Em nome da EDP desejo-lhe uma boa tarde.
Será que esta oferta é conhecida por hospitalizados e desempregados?
