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Caro senhor ex, ex, actual e futuro ex ministro:


...estive a ouvê-lo, há vinte anos, com muita atenção neste filmezinho memorial e apetece-me dizer-lhe que o fado explica tudo. O senhor Portas afinal é seduzível. Adorei a sua expressão ao falar do mar...quem diria que viria também a ser ministro dos assuntos dele. E para não falar de um objector de consciência ter sido ministro da defesa, lembra-se? E agora ministro de estado e dos negócios estrangeiros? e do negócio dos submarinos? que também deviam ter um ministro da tutela não?

Não querendo falar de genética, até porque ela no seu caso deve ter-se apeado em Arroios, procupo-me sim , mas só hoje, com a sua grave e irreparável amnésia militante e cito-lhe ainda mais palavrinhas suas: " O poder é a pior coisa que há...eu sou genéticamente contra o poder, seja ele de quem for"...
Assim sendo e porque tenho uma panelinha ao lume, tenho que ir andando, mas não sem antes me despedir de si com um caloroso e cordial cumprimento curtinho.


SENHOR PORTAS, VÁ-SE PODER !

Turbo-Rotunda



A primeira turbo-rotunda vai ser em Coimbra para substituir a da nacional 111 que é uma das dores de cabeça dos condutores na terra do perfeito português.
Vai ser preciso um manual de utilização, porque a malta cá no burgo é assim para o stressado ao volante. Num repente muda de ideias e decide resvalar em atitude gravitacional para o lado direito sem avisar e pior, sem olhar. Eu sei que estamos em contenção orçamental, mas acho que o sinal luminoso de mudança de direcção ainda não é acessório opcional quando se compra um pópó ( que saudades , quando se fazia sinal com a mão direita para mudar de direcção e se dava um estalo no pendura, por retroactivos de raiva interiorizada - se queres um bom motivo para dar um estalo de último recurso, vai a uma rotunda e desculpa-te que não tens piscas ;)))  ).
Portanto dizia eu que a TURBÓROTUNDA...gosto do nome ...TURBÓÓÓÓROTUNDA...TURBÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓROOOOOOOOOOOOOOTUUUUUUUUUUNDA...é sonante e potente...TURBÓÓÓÓÓ (pausa) RRRRRRRRRRROTUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUNDAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA...
Quando for a inauguração quero lá estar para ver as excursões de curiosos e filmar assim uma horinha, para mais tarde recordar.
Coimbra está de parabéns, porque tal como o Futre previa charters de chineses para verem os chineses do sporting, vão haver camionetes e camionetes de turistas, roulotes de bifanas e farturas, piqueniques e churrascos nas redondezas da TURBÓÓÓÓROTUNDA.


Eu vou... e tu?


                                                               Foto : Mika

Sabes?...

Gosto - a cada segundo que passa, quando se demora  tanto nesse passar - deste oito. Não por ser o teu oito de forma genérica, mas por ser o "meu"...8.
Mas... neste teu dia em que se oferecem sorrisos enrosados no rosto,  rosados no gesto de ajuda florista, ou ainda aqueles ditos para dentro porque a coragem lhes falta...apetece-me dizer-te a ti, Mulher,  que, para mim que sempre fui péssimo a matemática,  não tens  um oito. Porque Março é múltiplo de todos os outros meses, e este oito , primo de todos os outros números e porque o Teu dia não é de hoje, mas... reinvento-o em novo sinónimo - sempre.
Hoje, não te faço uma efémera oferta rosada, mas O sorriso vitalício por seres - sempre -  M   U   L   H   E   R.

Amigo a ...cores

Quero o teu voto...apenas se gostares.
Votos por simpatia, amizade clubista, partidária, só porque te apetece participar ou afins não me interessam.
Isto de andar a pedir aos amigos o voto pelo voto é " PURA BATOTA",
ouviste páaaaaaa?
Em suma ( o feminino de sumo) vota só se gostares...senão zango-me
...mesmo.

E também é válido o voto "não gosto", por isso se for o caso assinala faxavor.

Obrigado

-_-



http://www.conteconnosco.com/trabalho-detalhe2.php?id=368

Passos parados


Há dias. Ou serão apenas segundos?...em que a janela de parapeito largo se vem apoiar nos cotovelos.
E lá vem ele, de pés abertos, passo curto e lento a subir a rua de calçada descalça de tanto lhe andarem por cima. Mãos atrás das costas vendo tudo o que o olhar sugere. Cada carro que passa, cada janela com gente, cada canto de rua, cada lado do nada dos outros.
E avança e olha o muro que foi pintado de fresco, e toca com o cuidado da curiosidade, impossível de conter. E avança mais uns metros.
Os laranjas de uma árvore de quintal que se desprendem dos ramos para morrer no chão. E olha o chão, as laranjas, a árvore, o pardal que chilreia escondido a rir-se de não o verem.
Parado interrompendo as mãos cruzadas atrás das costas por uma comichão no nariz e outro ajeitar os óculos. E mais uns passos. E encosta-se à parede talvez descansando os olhos ofegantes.
Uma mulher desce a rua ao som dos saltos agudos de som. E ele olha. Primeiro o saltos depois as pernas em tonalidade encalorada, até ao rabo, que o faz seguir aquele balanço tornando-lhe o dia ainda mais quente. Faz aquele gesto do léxico masculino, de significado e coçar incertos. Será falta de vocabulário interior? E olha de novo até ao fim do ver.
E a carrinha do gás faz uma travagem mais brusca e as bilhas encostam-se umas às outras e ao olhar dele preso a meio passo da esquina.
E o pintor que pinta a porta por cima de quem a pintou de letras durante a noite e o faz de novo parar.
E as pessoas da paragem de autocarro, como revista à parada.
E a fruta exposta no lugar da esquina.
E desaparece. E aparece de novo. Decidiu voltar a atravessar na passadeira para desaparecer do outro lado.
Uma buzina insistente fez-lhe parar o passo, decerto.

...a passo.



A cada dia me apetece descansar no movimento que me pára a outro passo e me faz andar.

Tejo



Vejo-te do miradouro do Castelo, a cada maré, num fôlego que não se cansa, nesse teu remar que agarra o Tejo, da barra ao mar da Palha.
Até já.

Madrugada



Acordei com uma banda a passar tocando cravos em notas de fanfarra, como em todos os outros anos, comemorando uma madrugada distante, apenas no tempo.
Não me lembro da última vez que estive na manif de punho levantado. Mas lembro-me de quem não se deixou obrigar a impedir o gesto .
Não me importo que a história contada se deturpe de boca em boca até se pintar de sentido diferente a cada ritmo do saber ignorante. Mas gosto de saber que o caminho se iniciou muito lá atrás por gente com vontade de mudança.
Não aponto o dedo a quem se desilude e diz à boca alta, porque ouviu dizer, que o antes devia voltar a ser hoje. Mas quem sente que conta, importa-se, nem que seja participando em cruz no momento certo.
Não tenho vontade de sorrir quando na minha memória ainda entra gente que entrava sem convite e batia depois. Mas ofereço o sorriso a quem tornou esse tempo apenas memória.
Não saberei nunca quantos foram. Mas lembro-me que eram todos os que lá estavam, mais os outros que não quiseram estar e outros ainda que apressadamente voltaram costas.
Hoje, há quem ainda esteja, os que estão sem estar, os outros que nunca estarão e os últimos que não sabem sequer quem são.
Neste dia e noutros momentos de tempo, sinto a Primavera no cheiro do cravo vermelho nascido de madrugada.
A todos os que caíram durante a vontade de me/nos permitir também e sem receio esse gesto pleno de intenção, ergo o punho fechado em sorriso aberto.


(25 de Abril 2011)

Entre o grande e o pequeno passo, há sempre alguém que tropeça.

Há meio século o camarada Yuri foi o primeiro homem a visitar o espaço, essa dimensão desconhecida na época.
Estou desde há uns dias a maltratar os olhinhos no pó das profecias de Nostradamus tentando encontrar semelhanças na coincidência aparente de também hoje o FMI começar a viajar no  nosso éter que já teve um convite apelativo..." Conheça o Portugal desconhecido". Não sei se o "camarada astronauta chefe" Paul Thomson receia finar-se sete anos depois da viagem como aconteceu com o pioneiro Yuri, mas coincidências já as vejo...e Michel continua mudo em profecias, que raiva...28 anos depois de cá ter estado o FMI volta e ainda não ouvi ninguém dizer-lhe que está perdoado... 28 anos foi também o tempo dos anos negros da "dita dura" a verdadeira antítese de tudo que pode fazer sorrir. E há também hoje outra coincidência que só pode ter a ver com isto. O YouTube faz cinco anos e a frase "broadcast yourself" faz-me tremer como varinha verde...sobretudo porque não vamos ter falta de água nos próximos anos. As barragens estão cheias e há por aí gente de lá, a mais, com tanta sede por matar. Cada vez que o mote se me embrenha fico com a boca mais seca.
Assim como assim, vou voltar a por os olhinhos nos canhanhos do Michel...tenho que encontrar, tenho que encontrar explicação, tenho que encontrar...


PS - Hoje não respondo a ninguém e agradeço que nenhum dotado em vidência se evidencie ou me contacte por telepatia ou qualquer outro meio assediante... 


adiante....

Planície

Quero um dia despedir-me da cidade num breve, até já, que vou procurar um canto rústico e alpendrado que se demarque em altura do resto da planície, com vista para o pôr do sol.
Quero ficar a roubar todos os acasos que os olhos deixarem.
Quero fixar a máquina a um tripé e fazê-la disparar-se imóvel...onde só o tempo se muda.
Quero um chá de infusão colhido na altura, em chaleira sibilante, agarrar a chávena com as duas mãos e bebê-lo da forma mais demorada que o Alentejo me deixar.
Quero uma sebenta pautada de tempo para lhe confessar a pressa que tive em tocá-la.
Quero o cheiro do pão grande que perdura.
Quero a água fria de poço a acordar-me para um novo dia.
Quero querer-me até à vontade do desquerer...num pôr do sol assim... em canto alentejano que me espera... tão distantemente perto...


                                             Foto: Inês Sotto

Desinquietante



Descobri hoje que tenho outro heterónimo. Este, acordou-me a meio da noite... beliscou-me tanto e com tanta violência, que acordei com o ombro direito assimétrico do outro. Disse-me que se assumia como heterónimo de personalidade própria e contou-me da sua soberania sobre mim, em sonhos ou acordado. Contou-me ter a "Chave Dimensional", mas para nunca me convencer que de alguma forma o conseguiria mudar. Teria que aceitar como verdade irracional e só desta forma, banalizando a utópica  e redutora premissa das quatro verdades. Para ele, a filosofia, epistemologia,lógica e a metafísica são apenas uma percepção básica das impressões sensoriais. Pensei na hipótese da loucura a invadir-me, mas tranquilizou-me com um afago no ombro esquerdo apesar de ter preferido no outro, barbaramente beliscado. Quis provar-me que se escolhe heterónimo onde quer e assumir qualquer forma. Uma delas a mão que segurava o pé esquerdo no "Sonho Causado Pelo Voo de uma Abelha ao Redor de Uma Romã um Segundo Antes de Acordar" e que Dali, que era sonâmbulo, conseguiu contrariar. Por isso no esboço inicial a mulher tem a perna esquerda esticada e a mão aparece  a tocá-la. 
Perguntou-me se era sonâmbulo e decidiu ficar.
A semana começa bem...e o meu ombro sem vestígios visíveis de beliscos...mas ainda dorido ao segundo acordar. 
Temo o pior...

Equilíbrio ébrio


Quando se conduz, melhor dizendo quando conduzo, só os olhos e as mãos me conduzem. Desentendi-me desde cedo, creio mesmo que ainda na idade "90",  no meu "dentro filosófico" com quem não sente a estrada a ponto de deixar a rota pneumática, sair do eixo ideal, corrigindo-a em golpes quase marciais. E gosto que me conduzam se sinto reciproco nesse estado... e a expressão provoca-me abrandar... sem stop obrigatório... a não ser o de me dar conta talvez do sinal acomodante, de primeiro sintoma conformista, notado, o primeiro passo testemunha, de condutor a caminho de pendura.
Começo a gostar a cada dia de me sentir conduzido, de me sentar do lado direito e de forma egoísta mas assumida me deixar levar por cada múltiplo momento preliminar em  filme de viagem, seja perto, ou no longe quilométrico.


Numa estrada de verão aonde dificilmente voltarei, passou-se-me numa fracção de momento, dos tais em que adoraria estar do lado direito, para absorver todo o cenário merecido:
Estrada secundária, talvez a primeira com direito a inauguração protocolar, tesoura, fita, presidente da junta, foguetes e fanfarra no primeiro sinal visível da chegada do alcatrão... que as décadas ajudaram a tornar grisalho e cariado: 
A passos curtos gesticulando-se com a vida entre mãos, tentando vencê-la no equilíbrio derrotado ao primeiro copo, avançava acompanhado pelas palavras ou talvez parte delas que se soltavam dos lábios a cada outro pisar de terra naquela berma incerta. Camisa desfraldada, marca de sol e camisola cavada, cabelo escuro despenteadamente suado noutra tarde quente de taberna de aldeia, onde se procura num canto de sombra tinta. O vento fugiu-se-lhe há muito para longe, talvez feito passageiro clandestino numa viagem de ida em sonho emigrante. E ele naquela batalha ébria de fugir-se para casa, a caminho do jantar que o instinto também sabia de cor e a direcção interior sempre apontava. Pela ausência de casas num par de quilómetros, não estaria próximo.
E cruzámo-nos a velocidades diferentes...
Os metros chegaram a mil, mais à frente na estrada...e lá estava ela, a taberna supermercado que também vende gás e sonhos esquecimento de motes variados à la carte. Debaixo de uma amostra de alpendre de telhas velhas estava uma fatia de tronco de árvore e uma mesa de madeira resistente...era ali que ele se sentava...tive a certeza.
E revejo-o na imagem de mil metros atrás, pelo espelho retrovisor que nos via afastar. Ele de costas, a parar-se de passos em equilíbrio descontrolado e levantar no braço esquerdo o peso da mão caída, como a desejar-me boa viagem... para ele perigosamente incerta... a dele, próxima ...e seguramente controlada.

  


De "costas" para o Majestic


Sempre que o Porto passa por mim, o Majestic é um destino matinal de quase culto.
E fui de novo atendido pela mesma menina simpática de cabelo escuro, óculos e rabo de cavalo:
- Faça favor de dizer ( sem sotaque).
- Uma torrada com muita manteiga , um néctar de pêra e um pastel de nata ( com sotaque, deve ela ter pensado).
Os chineses perdiam-se em cliques pela fachada, o companheiro de uma alemã sugeria que ela se pusesse na melhor pose para a foto com o café em fundo, um lavador de janelas a caminho cumprimentava toda a gente com um sorriso de homem mais feliz do mundo que faz brilhar os reflexos de quem vê montras, algumas vendedoras de rua assediavam passantes internacionais, e o resto era burburinho comum daquela hora.
Um polegar no ar sugere-me o olhar do outro lado da rua que o sol iluminava. Sigo-lhe o trilho pelo braço até ao sorriso. Começa a caminhada a passos largos na minha direcção. Creio mesmo que a cada passo o sorriso se rasgava. E nunca conseguiria travar a tempo se continuasse naquele acelerar  direito a mim. Mas as cadeiras eram de ferro forjado o que me deu alguma segurança, bem como os bancos corridos do mesmo material confiante. Nem me lembro se bloqueou os passos ali à "minha beira".
- Tás bom mano? Há quanto tempo car...( sempre com sotaque)
Fiquei a ohar para ele sem saber se de frente ou de lado.
Tira os óculos para me ver melhor.
- Sou o Lúcio mano. Não te lembras? Eu não esqueço o Nelo das Fontainhas, nem em mil anos mano.
- Acho que me estás a confundir com outra pessoa.
- Mas qual outra pessoa és tu que eu conheço-te. Fomos vizinhos em costas...fo....
- Em costas???
- Andaste com a amnésica tu? Moraste lá meio custado e eu dois.
Para me pedir alguma coisa percebi que não era. Mas a conversa deixa-me curioso.
- Meio custado?
Depois de um sorriso desconfiado de sobrolho franzido diz-me:
- Tás-ma fo... Em Costas mano. Não me digas que te perdeste.
- Mas olha que não sou eu.
Olha-me mais fixamente e diz que não com a cabeça em jeito conclusivo.
- Pardeste-te  mano. Tou-ta ver. O Chias também se perdeu. Por isso nunca meti. Mas olha gostei de te ver. Acredita.
E dá-me umas palmadas afectuosas no ombro ao levantar-se.
- Mas olha que não sou mesmo eu pá.
Ri com ar de quem está a ser enganado e diz-me já de pé a por de novo os óculos.
- Deves ser cantor tu, pois deves.
A afasta-se a passo lento, decepcionado.
Voltei ao cenário com o pousar da torrada trazido pela menina do café.

Gostei de te rever hoje depois de todo este tempo...muito.
 
Vi-te uma vez a caminho da porta maior da eternidade prometida ... chamei-te, mas fingiste não me ouvir. Não insisti...conheço-te por inteiro. Nem o grito te mudaria a rota, quando te sei num caminho sortilégicamente poeirento, em que caminhas com o braço dobrado a proteger-te os olhos da tempestade de areia que te cegava... sugando-te.
 Fiquei sempre por perto, a cada esquina, perto do teu ombro para te agarrar antes da queda evidente, protegendo-me o olhar do pó...protegendo-te.Conhecia-lhe o desencanto desde a primeira brisa mas deixei-te chegar até à última metade do teu passo antes da falésia.Agarrei-te pelo ombro antes do fogo...e "acordaste"...do teu pesadelo pensado sonho.Tens a cara cheia de pó...rugas de deserto...cresceu-te a barba, mas vejo-te um sorriso de quem acorda com vontade de um banho de água da chuva...
 
Gostei de te rever hoje... ao espelho.

"When you are with me
I'm free...I'm careless...I believe
Above all the others we'll fly"


Sabores da memória

 
                                                          Foto:  Mika

Aquela praia da Caparica a que chamavam "Bexiga" era um dos meus poisos preferidos nos 80's. "Cantantes" de pilhas grandes, sugadas pelo volume máximo que os botões permitiam. E óculos de sol espelhados e volei e betinhos e futebol de praia e punks e skimys a cortar outra onda e surfistas e...ele ali a fazer-me num ápice recordar gigas de património emocional daquele tempo. Eu ao mesmo deste tempo a procurar forma de o fotografar e o sinal a passar a verde e as buzinas a atropelarem-me a vontade. Tinha perdido a oportunidade de o ter em imagem para um post que me faria sorrir.
Até que num dia de chuva ao passar de novo por lá, sem esperança de o voltar a encontrar...ele lá estava, no mesmo sinal da Praça de Espanha a vender sonhos de trincar. Tantos anos depois...

Lembro-me dele... lenço na cabeça, daqueles aos quadrados usados para assoar e com um nó em cada ponta. O suor a mostrar-se a cada novo passo de outros tantos sem conta a cada dia de sol que tratava por tu. Os dentes brancos, de homem transmontano ou minhoto, e aquele olhar verde claro que se notava quando passava por perto.  
A caixa era de folha, quase maior que o seu tronco franzino, pintada de bege com uma janela em plástico para mostrar provocadoramente, sonhos de baunilha estaladiça cuidadosamente fechados com uma tampa piramidal e uma cabeça de roberto de olhos enormes na ponta:
- Barquilhooooooooooooooooos...
Gritava a plenos pulmões no seu andar matinal decidido. Muitos chamavam-no ao longe mas depois escondiam-se, numa brincadeira de adolescentes a quem me apetecia puxar as orelhas. Mas ele nunca desanimava. Uma vez na caminhada desde a beira de água até ao cimo da areia mais escaldante para atender um cliente, uma miudinha estendeu-lhe o dedo e voltou-se para a mãe em jeito de pedido, mas negado em sinal secreto porque a carteira estaria apenas cheia de sonhos de um dia inteiro na praia. Ele reparou... viu-se talvez menino sem poder trincar tamanho sonho ali tão próximo da ponta daquele dedo, num segundo caído na areia e deu-lhe um pacote inteiro com quatro barquilhos.
Nunca o vi molhar mais que os pés, naquela maratona diária que hoje relembro. Nem de refrescar-se num gole de água. Acho que se retemperava naquele caminhar desajeitado pelo carrego às costas, na intenção de arredondar os bolsos de uma vida feita a passos curtos, vendendo sonhos de boca.
Quando a jorna fora menos boa saldava os restantes com uma técnica de marketing futurista para a época. Punha a caixa no chão e começava a correr pela praia com o pacote na mão do braço levantado. Dizendo com voz cantada que não levava nada para casa. Aquele era para o primeiro que lhe desse uma moeda. E assim vendia quase tudo num sorriso. Sempre o vi sorrir da mesma forma, de manhã até ao quase ocaso.
Nunca duvidei que tivesse com o sol um ajuste, em que dividia as sobras do negócio em troca de protecção ultravioleta. Talvez no final do dia se encontrassem perto da Adiça, à hora da praia deserta. E sentados, com os pés na praia-mar trocassem a conversa habitual, misturando em dentadas barulhentas de boca aberta o prazer da baunilha estaladiça. Antes da noite chegar, despediam-se com um até amanhã de boca cheia... a conversa era de homens e a lua não tinha nada que os ver por ali.

Entre esfera e círculo... prefiro-me ponto...final.


___________________________Entre esfera e círculo ...

vieste pela boca como peixe que se morre  a cada anzol...
disseste-te estrela ...
hoje sei-te apenas reflexo do brilho próprio que desejaste...
um dia tropeça-te de novo o pé nesse teu chão de nuvens...
e estilhaças-te em pedaços num estrondo de silêncio...

uma das cores safira te chamaste...
conheço-te hoje o verdadeiro nome...
de imensidão "cavernosa" e densamente sombria...
és apenas "Falso Cristal"...

___________________________prefiro-me ponto...final.

Lua crescente... de Março

Falaste-me de sonho...de Lua crescente na vontade deste Março...

dou-to num todo "quase nada" de C ... de Cabrel.


Excertos de Março

                                                                                     Foto: Mika (tlm)

A previsão do tempo não bateu certo. E o sábado finava-se com um entardecer convidativo a imprevisibilidades.
Fui comer um crepe de chocolate com chantilly, caramelo e nozes. A menina dos crepes deixou queimar o primeiro. Esqueceu-se e por engano pôs gelado de baunilha no segundo . O terceiro sairia quase perfeito não fosse o rasgo acidental ao dobrar. Ela corou olhando-me de lado. Eu disse-lhe que não tinha importância. Assegurei-lhe num sorriso que não pediria o livre de reclamações em troco de mais umas nozes e outros tantos riachos de caramelo se ela o conseguisse de forma clandestina. Descobri-lhe de novo o tal sorriso pré-crepe. Entregou-me o prato na mão , quase descompensado pelo peso das nozes e caramelo extra. E ofereceu-me o mais doce dos seus sorrisos em jeito de desculpa.
Seria uma das últimas partes doces do dia.
Perto de uma rotunda apinhada de condutores de fim de semana, um deles decidiu impressionar a loura dos óculos astronáuticos sentada ao lado e encostou-me ao meio da rotunda, num chiar de pneus comum a qualquer saxotuner de escape sibilante, com electrohouse a sair-lhe pelas narinas. Não gostei, mas o sabor do crepe adoçou-me a razão e o pé direito. Atrasei por defeito a saída da rotunda, que por mero acaso é uma das minhas preferidas, quando tenho só por testemunha a Lua já bocejante.
Saí da rotunda depois de cruzar três faixas por causa do menino tuner fora de mão.
Claro que naquele preciso instante um outro "tuner" mais comedido me chamou pelo numero da matricula ao megafone da viatura e me sugeriu que encostasse. Fiquei a conhecer a sensação de me tratarem pelo numero da matricula do carro...mas ainda tinha o sabor do crepe. Passados alguns minutos e uma infracção do artigo 35 - 1º do código da estrada a valer 120 euros, voltei à minha rota desejada já sem o sabor do crepe e a contabilizar quantos teria comido se tivesse entrado na rotunda uns segundos depois...30 crepes.
O Speakeasy estava com um beat fantástico(Wat), mas o consenso ditou por maioria outro destino e lá fomos em excursão meia dúzia. Tinha decidido depois do crepe abster-me de qualquer outra decisão de monta nas próximas horas. As escadas do Plateau estavam populadas de sábado à noite. A música trouxe-me quase o sabor do crepe, não fosse o fumo e teria sido perfeito.
"Enter Sandman" mexeu-me o último gole, a acordar-me fora de horas para a hora de noite por dormir, dei os bons dias a Lisboa que despertava suave.
Ao chegar ao carro vi o retrovisor desfeito possivelmente com um pontapé alcoólico ou derivado. E vão duas mazelas graves no meu rodinhas, a última tinha sido numa porta... também não fui eu.
Não me apetece mais nenhum crepe...só um clic sobre a ponte, para eternizar esta aurora com o bizar dos Metallica ... duche quentinho e cama.

"Hush little baby, don't say a word,
And never mind that noise you heard
It's just the beast under your bed,
In your closet, in your head

Exit, light,
Enter, night
Grain of sand
Exit, light,
Enter, night
Take my hand,
We're off to never never land."

Dá-me os teus olhos ...e veste-te de negro luz...



Dá-me os teus olhos...e vem passear de braço dado pela rua das mil cores, dos mil cheiros, dos mil sons...das mil luzes.
Vem em silêncio.. a passos curtos...vem sempre em frente ou pelas tuas esquinas que nunca dobraste. Vem até ouvires a concertina vermelha do cego, sentado num caixote de madeira acabada, naquela esquina de Barbés. Segue-lhe o som...segue-lhe a sorte...segue-lhe a vontade de ter o mundo a cada diatónica, na ponta dos dedos que nunca viu.

...dá-lhe os teus olhos... e veste-te de negro luz.

Era uma vez...

Na espiral, entre percepção e memória...    



... cumpro o ritual adiado, colocando-as em Lemniscata.