
Combinaram por telefone encontrar-se à porta dela. Um prédio pombalino com degraus de madeira restaurada, imaculadamente encerados. O corrimão em ferro forjado envernizado a mate incolor amparava-lhe o descer quando usava os compensados que lhe acrescentavam o resto da altura para o beijo equilibrado.
Ele chegou primeiro, como acontecia sempre. Pressionou o botão retro e polido da campainha…ela desceu. Ouvia-lhe os passos lentos compassados e seguros desde o bater da porta de quinto andar. A escada ecoava-lhe o chegar de forma apetecível e desejada de os ver de novo após tão grande ausência.
Ela tinha estado fora a preparar a colecção de inverno, em Milão. Ele de novo em missão no Iraque para um canal de informação inglês.
Há três meses que não se viam a não ser por vídeoconferência.
Ela pisava o último lance de escadas que ele conhecia de cor. Abriu a porta e ficou a olhá-la naquele descer. Nos últimos degraus deixaram olhos fixos um no outro enquanto os passos dela os aproximavam. Ambos esticaram os braços lentamente encaixando-se num gesto impetuoso. Depois num beijo leve de lábios.
Para não quebrarem a vontade de se sentirem juntos de novo, combinaram no inicio da relação, não falarem de nada durante o reencontro após uma ausência prolongada.
Conheciam o gosto de ambos em todos os cenários vividos.
A “Brasserie” da Alecrim era um dos restaurantes preferidos, calmo àquela hora a que costumavam jantar fora e tão próximo de casa dela. Onde quase sempre terminavam a noite.
Ele pediu bem passado, ela um seitan e espumante rosé para acompanhar. Ele um Romeira tinto. Continuaram a olhar-se alheios a tudo, revendo-se no desejo já vivido de voltarem a tocar-se ali por debaixo da mesa coberta com uma toalha branca a transbordar pano e margem de segurança ética.
Ela num vestido novo, largo e vermelho, escorrendo leve e amarrotado quase até aos joelhos, decotado a insinuar-lhe o peito.
Começaram pela salada de odor intenso a vinagrete, polvilhada com frutos secos. Ela, num movimento denunciado, continuava a olhá-lo. Era o convite para que ele, já descalço, posicionasse o pé no meio das pernas dela. O movimento lento ao tocá-la… provocou-lhe em menos de um minuto a intensidade suficiente para que os olhos denunciassem sem pestanejar aquele primeiro orgasmo para ele. Sempre de olhos fixos e mudos de palavras. brindaram ao primeiro dessa noite, esvaziando os copos num único gesto até à derradeira gota. com a mesma vontade e empenho que tinham sentido momentos antes.
Durante o resto do jantar permaneceram calados a invadir-se com o olhar. num jogo grandiosamente dominado por ambos.
Outro ritual fazia parte daquele reencontro. O ultimo copo era bebido, como o primeiro, de uma só vez.
Saíram do restaurante, trocando as mãos na cintura. Quando ela punha sapatos mais altos ele adorava colar-se, para lhe sentir ainda melhor o andar.
Perto da casa dela e já no regresso um concerto clássico de rua juntava várias centenas de pessoas. Encontraram um encosto de parede disponível ao fundo da plateia entre duas colunas das arcadas de uma loja.
O concerto recomeçou, ela fechou o olhos e deixou-se recuar até mais perto dele que de tão perto, lhe sentia o respirar na sua nuca. Um sopro de vento frio mas suave fez aninhar-se ainda mais.
A musica invadia toda a praça em crescendo... como ela, abraçando-o até onde a mãos chegavam. Sentiu as dele responderem a essa provocação tacteante.
Os bolsos do vestido não tinham fundo propositadamente. E ele sorriu ao sentir-lhe a pele convidativa das ancas na ponta dos seus dedos. Das contracções de ventre dela a cada poro estimulado.
Uma mulher ali mesmo ao lado apercebeu-se e olhou-a com um sorriso cúmplice.Ela voltou a fechar os olhos até se perder demorada e expectante na intensidade do próximo. Recostou a nuca no ombro dele e deixou-se levar pelo contraste daqueles dedos que sabia de cor, em crescendo até à apoteose do “coroado” estimulo final , de Mussorgsky, coro e sinos em sintonia com o que lhe vinha de dentro. Durou o tempo das palmas de toda a plateia que lhe abafaram o sussurro descontrolado.
Ficaram ambos na mesma posição até todos saírem da praça...sobravam ecos de concerto naquele desconcertante reencontro há muito desejado. A noite estava a começar...
Noites Lisboetas
Comfortably Numb
Os lábios dançam... envolvendo em pétalas de silêncio a tonalidade alaranjada de outro ocaso de Tejo...saboreando-a, num sorriso "confortavelmente entorpecido"
reFLEXOS

As margens calam o silêncio barulhento das rochas
Os pássaros abandonam o voo
O oceano perde-se em marés
O sol mentiu... fingindo-se lua.
...e nessa quase noite... só os reflexos foram reais.
Passeio molhado
A chuva caía apressada, barulhenta, com vontade de vingança pelo bom tempo anterior. A iluminação da esquina firme e empenhada no seu papel de iluminar, mesmo quando a rua fica cheia de ninguém... ou quase.
Acordei pela violência com que a água batia na minha janela e pela fresta permeável a provocar pingos no alumínio. Fechei-a e vi-a caminhar junto à parede, indiferente ao tempo molhadamente chuvoso. Trazia o olhar no chão e os braços cruzados como a proteger-se da água que lhe invadia a roupa e todo o corpo.
Ao passar por baixo de um abrigo de prédio sentou-se no chão, encostou a cabeça à parede e abraçou os joelhos a olhar para a esquina oposta. Depois deixou cair a cabeça nos joelhos e ficou assim...
A chuva abrandou passados alguns minutos e um chá que bebi.
Voltei à janela e ouvi-a soluçar ainda na mesma posição anterior, ao mesmo tempo que batia com a ponta dos pés na calçada.
Um carro parou no semáforo. Lá dentro a música mostrava-se barulhenta e com graves a saltar por tudo o que era poro de chapa. Um dos ocupantes abriu a janela e meteu-se com ela. Ela indiferente nem se mexeu. Com insistência o ocupante chamou-a e ela olhou. Fez-lhe sinal de quem queria um cigarro. A porta abriu-se e o ocupante de boné preto, roupa sequinha, vai até perto dela com o braço esticado e na ponta dos dedos um maço de tabaco. Ela tira um cigarro e ele baixa-se para o acender.
Trocam algumas palavras e ela diz que não com a cabeça. Ele permanece perto dela e continua a falar-lhe. Ela risse, de forma audível, enquanto escorre o cabelo para o chão. O outro ocupante do carro sai também e chama o primeiro. E ambos entram no carro, que desaparece com ruído de pneus no chão molhado.
Ela encosta de novo a cabeça à parede, deita as pernas no chão e desfruta daquele cigarro até ao fim, demoradamente. No final, fazendo dos dedos fisga,lança a beata para o riacho no alcatrão. Levanta-se, espreguiça-se e abana a cabeça para a desencharcar. Olha o céu, confiante, retoma outro caminho, por vezes aos saltinhos e dedos a roçar a parede.
Caminhou à chuva, abraçou-se, chorou, fumou um cigarro cravado, a chuva conteve-se e trouxe-lhe de novo o sorriso, saltitante, rua abaixo.
17 de Setembro...de outro milénio
Entrou pelo quarto durante o toque das cinco, na sirene da fábrica.
Abriu ainda mais os olhos azuis como puxando a vontade de encontrar, no meio do caos, de roupas e adereços de uma vida de palcos, o que se tinha esquecido. Adiantou-se no ímpeto de achar a qualquer preço naquele canto da memória, o que o passado a fez recordar.
Revolveu gavetas e todos os cantos daquele aparador feito cómoda de avó, caixas de sapatos aconchegadas em pó de momentos esquecidos debaixo daquela cama barulhenta.
Subir ao mais alto que os pés podiam, naquela cadeira em que adorava perder-se em momentos sós . Mas o cimo do roupeiro tinha restos de tudo menos do que procurava.
Meia hora de busca desvairada, e encontrou-a finalmente, entre a cabeceira da cama e a parede, no meio de beatas, fotos rasgadas, preservativos ressequidos e uma caixa de goronzan, num gesto de desespero, quase a abrir a represa do descontrole, salgado a negro sombra.
Despiu-se. Apanhou o cabelo. Encheu a banheira. Acendeu uma vela vermelha de cheiro a morango. Abraçou o cinto ao braço direito. Esperou que a espuma eterna na colher abafasse aquela última tarde fria de Outubro...calando aquele último gesto, o fechar azul dos olhos, tantas vezes vivos na eterna vontade de o ser...
Caminhos...(2)

Olhou para a esquerda e direita quatro vezes. Atravessou apressada na passadeira como se o tempo lhe fosse curto na caminhada diária até ao outro lado da cidade.
O tempo aconteceu, por vezes mais apressado, de outras pachorrento e preguiçoso sem a vontade a arrancar-lhe outra folha de calendário.
E hoje voltei a vê-la. Os dias de eleições são sempre cheios de sorrisos.
A rua deixa-se quieta e introspectiva. Parece que os votantes caminham com mais leveza pela calçada...respeito cívico?...talvez nem tanto...apenas, porque sim.
Estava dentro do carro e vejo-a de mochila preta presa aos ombros e chinelas de praia, a subir aquela rua de Santos...confirmei com um olhar mais atento. Era mesmo ela.
Há meses que não a via. O seu ar despreocupado levou-a para o meio da estrada por onde caminhava, até uma buzina , a ter desviado num saltinho para o passeio.
Tive vontade de lhe perguntar porque deixou de aparecer aleatoriamente com uma frequência indisciplinada mais regular.
Já tinha saudades do sorriso que me provocava, ao vê-la quedar-se em frente aos restaurantes, ler a ementa e seguir até ao próximo como se nenhuma delas lhe agradasse. E correr assim todos os cantos gastronómicos.
Lá vai ela, com passo ligeiro, rua acima e destino secreto, até à próxima vontade em que o acaso nos voltará a cruzar de novo.
Chocolate de Outono

O roupeiro devolveu-me aquele aconchego turco quentinho com capuz preto, ainda meio tonto do seu hibernar.
Elas caíam... naquele suave cair, em despedida saudosa. E ela, imóvel sem gestos de ramos, a deixar sensualmente despir-se, para me deixar, um destes dias, o campo livre até ao fim da rua.
Ficam os aplausos quando lhe pisamos as folhas, naquele devolver ao chão o que ele lhe deu. Fico a vê-las ...cair.
O chocolate está no ponto e saborosamente bebível. Denunciado pelo odor que me chegou à janela do quarto salpicada pela primeira chuva de Outubro, que acelera o passo de quem foge à chuva com destino marcado e impaciente.
Mas qual "...outra primavera..." senhor "Alberto" (Camus)? Outono é Outono, com infinitos castanhos e folhas salpicadas de chuva a provocar o escuro das roupinhas de Inverno e sonos mais preguiçosos ao levantar.
Apetece-me chuva e cheiro de folhas caídas, com um chocolate quente.
Ruas

A noite despertou-me, baixinho, a vontade, para um passeio a pé pela parte velha . O silêncio, os odores nocturnos, a luz fraca das réplicas de lampiões antigos...
A minha cidade voltou a despir-se de sol e mostrou-se como a recordar-me que a tinha quase esquecido.
Abrandei a caminhada e deixei o tempo ultrapassar o passo. Um gato preto ficou imóvel a seguir-me, com um olhar vadio e terno. A torre da câmara já não dá horas. Uma mulher estende roupa numa corda folgada salpicando-me com o cheiro a lavado modesto. A taberna fechada há muitos anos traria agora aquele odor a esquecimento graduado, bebido em copos semilavados enquanto a sueca seria a única mostra de mulher presente, tocada por mãos calejadas e unhas encarvoadas. Mas a porta estava fechada e selada ao pó no lixo do esquecimento.
A serração e a fábrica de pedra tiveram o mesmo destino.
Apeteceu-me a calçada antiga e nunca renovada... voltei a passar por ela na única passagem entre prédios que conheço, que de tão estreita, é preciso roçar paredes para atingir o outro lado.
A ida terminou frente ao Tejo no ponto mais alto e possível desta latitude.
O vento veio, os sons da ponte também. Empenhei-me no voltar devagarinho, pelo mesmo itenerário de ida, para rever tudo uma outra vez.
Uma lâmpada indecisa agradeceu-me num sorriso a visita naquele seu piscar cambaleante de fim de vida.
Do not disturb

- 2º andar!... 2º... 2º.... segundo andar.
Ao fim de alguns segundos o elevador resolveu obedecer ao meu indicador esquerdo. Cheguei a pensar naquele compasso de espera claustrofóbico, se Otis seria além de místico, também reaccionário.
Abri a porta do hall do meu piso da residencial e mesmo ali num momento surrealista, estava uma nórdica bronzeada em formato dégradé de branco a vermelho quase bife, apenas com uma tanga preta como adereço e perto da histeria, a vingar com a mão, as orelinhas, sem motivo aparente, na porta do meu quarto.
Ao ouvir-me entrar contraiu-se num gesto defensivo subtil e recuante, ao olhar-me, enquanto me dirigia para a porta agredida.
Percebi o motivo… E apontei com o indicador direito ( não fosse o seu apelido também Otis e provocar demora na reflexão) para outra porta ao fundo do corredor de onde provinha o testemunho sugestivo de “sex loud and clear”.
Pediu-me desculpa em jeito de vénia desnudada, retirando-se em recuo, sem se importar, ou por esquecimento, de ir repetir a vingança na porta certa.
Fiquei a saber que o gesto de apelidar a loucura com qualquer um dos indicadores disponíveis em círculos junto á cabecinha loira era internacional… tendo desaparecido no escuro do quarto vizinho.
O meu sono foi contrariado também pela agitação do quarto suspeito que se ouvia na porta da rua.
Algo me motivou algum orgulho na minha portugalidade.
Os direitos de autor da minha vizinha do quarto ao fundo eram Made in Portugal.
E os auges sucediam-se sempre no feminino…pelo menos os que a partir de um numero sem conta, largamente superior a sete, me começou a despertar a curiosidade matemática.
Sem contar múltiplos e a cadência estonteante testemunhada ao segundo em jeito de relato pela interveniente, com uma precisão estonteante…a noite prometia. Mas apenas por lá. Os vizinhos que se lixem com um F despreconceituado.
Farto de contar os orgasmorelatos da vizinha, e porque comecei a duvidar que o quarto fosse ocupado por mais alguém a menos que o segundo ocupante fosse mudo, decidi olhar para o relógio. Cinquenta minutos desde a minha chegada a uma cadência quase suíça.
A minha última teoria foi mesmo a de pensar que era um novíssimo modelo importado de alarme em teste anti-roubo. Mas rapidamente abandonei a ideia.
Em jeito de final de fogo de artificio o último sinal apoteótico sugeria o regresso à normalidade decibélica, mais agora deci que bélica, confirmada logo a seguir pelo ruído mais contido e discreto da água corrente no chuveirinho.
Já há uns anos que não vinha ao Algarve, provavelmente a nórdica nunca cá tinha estado…
Seria o propósito de me bater à porta ter a ver com o incomodo pelo barulho do quarto do fundo???
Assim como assim…preferi a última e prometedora letra do abcedário.
Barbearias

Lembro-me daquela barbearia de luzes amareladamente tingidas pelas lacas e elixires de cheiros sublimes e só para homens de barba rija- dizia-me de passagem quem me levava pela mão. Ficava fascinado ao passar por lá nas tardes de inverno quando as luzes de mercúrio dos candeeiros de rua, já acesas, invejavam aquela tonalidade quente. Lá dentro liam-se jornais que “moteavam” a conversa a cada dia, com um rádio de pilhas com as vozes monocórdicas e as músicas da Emissora Nacional naquele baixinho que só se ouvia nos momentos de silêncio por entre o abrir e fechar das tesouras e do bombear de spray lacado.
Na parede espelhada, sempre um calendário de pin-up em topless com uma flor ou um laçinho a dar côr e candura àquele monumento anual que os meses iam também amarelando.
Por vezes, um engraxador com perna de pau, que me deliciava o olhar pela agilidade do escovar em dueto de mãos e tirando sons chicoteados do pano, ao polir cada sapato.
Mas o meu barbeiro nunca foi ali, naquele manancial desejado de rua direita. Pela mão levavam-me a outro ali perto. Sentavam-me numa cadeira alta com uma almofada de cabedal vermelho para me tonrar crescido e confortável para os rins do Sr. Favinhas, que não tinha calendário de menina nua no espelho nem luzes amarelas. Só das flourescentes e frias que iluminavam o corte por vezes contrariado em arrepio de pente e tesoura, desobediente ao olhar de um pastor alemão de calendário.
E essa memória esqueceu-se no tempo até há poucos anos em que me tornei cliente da primeira num acaso de passar por lá.
O aprendiz tornou-se patrão e o outro empregado continua empregado. Desimporta-me qual deles está disponivel para o corte.
Mas da última vez foi a cadeira do empregado que utilizei.
As luzes tornaram-se brancas com o tempo e as obras de restauro davam ainda cheiro novo. O que restou foi apenas o espelho no mesmo sitío do anterio a ocupar toda a parede frente às cadeiras dferentes da referência primeira e a pin-up agora sem laço, flor ou mesmo a parte de baixo do biquini e fotografada em pose provocante a que hoje nenhum dos miúdos que passam na rua ligarão.
O rádio já não era de pilhas, os jornais multiplicaram-se nas cadeiras de espera. Tema do dia: futebol...selecção.
Apenas perguntei qual tinha sido o resultado...Erro crasso no mote escolhido.
O empregado que tinha começado o corte a pente 4 entusiasmado com o seu protesto aos árbitros ao treinador, ao presidente da federação e até possívelmente ao cortador de relva do estádio não parou de me bombardear com gafanhotos que me atingiram em toda a zona do couro cabeludo ou do que resta dela. O pano creme que me envolvia protegendo-me dos inofenssivos cabelinhos caídos foi incapaz de ficar com uma área menos salpicada com cada perdigoto lançado por aquela criatura fora de si.
Percebi que futebol não seria definitivamente um bom tema para conversa com empregado de quem apenas tinha um reparo anterior.
O facto de se encostar demasiado aos braços dos clientes durante cada prestação. Pedi reforço no elixir pós corte. A intensidade de alcool deveria desmicróbiar tudo.
Levantei-me e deixei por herança momentanea o lugar na cadeira do empregado, a um cliente novo, seco e acabadinho de chegar:
- Tás bom Manel? Viste o jogo?
E ainda consegui sair dali antes do Manel responder
Holandês Vicentino

O Sol nascia preguiçoso por detrás do pinhal desordenado da costa alentejana com o Mira a rasgar-lhe a praia.
A humidade nocturna a desvanecer-se no ar e na areia. As primeiras pegadas, dos veraneantes madrugadores, até ao espaço ocupado de costas para o mar.
Gosto da vista do cimo da falésia e da areia, que a geada molhou, a colar-se-me aos pés.
A água a esverdiar-se a cada novo grau de nascente. Aqueles odores de manhã que nenhuma parede de cimento cheirou.
O silêncio, de ondas suaves empurrando pedrinhas de beira-mar e areia, de aves marítimas, de canaviais vizinhos, de… outros silêncios ouvidos.
Depois da última duna… o mar perdeu o interesse do olhar primeiro, fugindo para o fundo do areal. Na irregularidade da pequena falésia amostras de cascatas sazonais desenhavam cursos de flora a cada descer. Sem vestígios de pegadas, sem lixo perdido, sem traços recentes de espaço ocupado…como se aquele estacionamento imprevisto lhe fora destinado por Nemo.
Aproximei-me, descendo por um carreiro de areia, estreito e esquecido, entre sebes e rochas. E ele ali, roubado ao mar… ou trazido durante a borrasca para um pedestal arenoso. Pintado a ferrugem pelas demãos dos anos. E do tempo que lhe roubou a alma de cores e memória mareante. Desistiu do oceano, ao astear o hélice na areia à espera que a última onda de inverno o misturasse com a desvontade de se sentir vivo...
Era um rebocador holandês, contou-me um pescador da praia seguinte: “Foi aí por 96. O mar partia muito”.
A máquina parou e o vento noroeste acabou por empurrá-lo para a costa rochosa e traiçoeira.
Os quatro tripulantes foram salvos. Ele não…
Fui...mas acho que volto, noutra incerteza do tempo

O pano subiu... As férias começaram a ritmo de primeiro acto.
Alentejo que desejo poiso, noutro meu ficar.
Navio náufrago vicentinamente cativo.
Lagos em acto segundo, de praias tímidas por descobrir.
Chinelo de praia caído numa rotunda sentindo-se pisado por outros pisos de borracha.
Ruídos de boca a suarem desejos no quarto ao lado.
E o acto terceiro quase a chegar, para na apoteose da peça voltar a fechar o pano até outros sinais audíveis de Molière.
Em Almadéna, a sul, o sol esconde-se por detrás da terra...
Ventos

Sexta-feira quase a morrer no calendário. Degraus servem de banco. Poste, parede e corrimão dão encosto a quem o tempo vai tirando o equilíbrio. No meio de risos, olhares, seduções, vozes em uníssono ou um duo de trovadores de fim de semana, lá do alto Camões vê o chão pegajoso de muita cerveja entornada e outros usos de noite lisboeta. Os carros passam iluminados de som, os passeios usam-se pelos saltos altos pintados de noite. Este canto alto da cidade padece de insónias e overdose de gente.
No quiosque dos sóbrios, mesmo ali ao lado também ninguém se importa com as folhas de jornal que o vento traz. Ficam restos de capilés, groselhas e licores em copos bebidos e esquecidos que a chuva miúda ajuda a borrifar.
Agora em sopro de tímido, uma folha de jornal esvoaça para uma grelha de pulmão de estacionamento: “MORREU O REI DA POP”.
Sabendo que só eu e ele tínhamos reparado no surrealismo do cenário... piscou-me o olho possível de piscar e do alto daquela praça sua, sussurrou às musas, olhando o Tejo, em jeito propemptikoniano.
“Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração.
Mísera sorte, estranha condição”
Diablo Rojo
Olhou para a esquerda e direita 4 vezes. Atavessou apressada na passadeira como se o tempo lhe fosse breve na caminhada diária até ao outro lado da cidade. Parou em frente do restaurante, fechado naquela hora matinal. Aproximou o olhar da ementa colada na porta num gesto de tique de leitura de cima abaixo. Retomou o passo lesto e empenhado no chegar, à próxima ementa.
De outras vezes vi-a numa paragem de autocarro.Sentada na pontinha do banco, pernas juntas, postura direita, mochila pequena,mãos, de tez morena, cruzadas sobre os joelhos e afastada do contacto com o mundo estranho daqueles com que tinha de partilhar aquele poiso comum. Um após outro que chegava e partia, indiferentes a uma pretensa passageira de paragem.. Entravam e saíam pessoas de camionetas usadas e poluentes, mas ela lá continuava até o desígnio do seu querer. Olhava um ponto fixo no meio de quem passava. Talvez secreto, talvez abandonado numa qualquer cor ou lugar do seu quimérico olhar.
Vestia sempre cores a destoar com cada estação. Vivas no inverno, escuras no verão, reservando-se o direito à desavença com o tempo. Ou apenas porque os seus olhos eram diferentes a ler ementas de restaurante e as tendências do ( seu ) tempo.
Durante o nosso dia desmedido de relógio de pulso, ela contrariava-lhe as horas e os compassos, numa arrogância indiferente e troçista.
E hoje voltei a vê-la. Tunica vermelha, ténis vermelhos, cabelo apanhado em duas partes de tranças de menina. Talvez afinal o calor não lhe fosse tão indiferente assim. Sentada no muro da igreja com os olhos presos à porta aberta, fazendo fronteira entre o sol tórrido e a sombra de confessionário, no mesmo olhar de paragem de autocarro. Parei e fiquei, sem pressa, a vê-la assim meio apartado e escondido.
Ora se voltava para o lado oposto no sentido do altar e a porta, ora à posição inicial. Repetiu-se umas 3 vezes a intervalos comedidos. Saltou do muro num pulinho alegre, tirou uma maçã vermelha da mochila, deu a pimeira dentada decidida e retomou o passo, desaparecendo na esquina.
Seremos nós, os de relógio de pulso, quem não sabe viver o tempo com a despreocupação do próximo segundo?
Apeteceu-me, mas fiquei no sortilégio estático de, ir atrás dela e pedir-lhe uma dentada daquela maçã intemporal...
Devota
Hoje, dia de voto, a rua acordou silenciosa. Menos carros, mais gente a caminhar de forma discreta e poucas conversas de esquina.
Esperava ansiosamente pelas Europeias 09 para completar a teoria, de que em dias de procissão e voto, o nivel sonoro é estranhamente reduzido.
Não há buzinas, nem demonstrações de décibéis em tuners de corres vivas, não há aquele barulho característico de rua movimentada por quem passa, como se a querer deixar a marca ao passar, no passeio dos famosos de rua banal.
Ele, de traje descontraído vai uns passos mais à frente da esposa, de penteado cuidado e roupa ainda a denunciar naftalina e mala acordada ao vegetal. Ele sai todos os dias, ela não. Ela, mesmo que uns passos mais atrás tem orgulho nesse passear com o seu homem mesmo àquela distância, mesmo que apenas para ir ao fundo da rua direita para votar, num ir eternamente curto, de tão agradávelmente invulgar que se tornou.
E ele, sorridente, fala aos amigos por quem passa e ela espera uns passos mais à frente. O momento mais próximo em que estão juntos na saída de dever cívico, é na fila da mesa de voto, se a afluência de votantes promover esse restício de tempo a dois. De olhares descruzados, mas próximos.
E votam...ele primeiro...ela depois...e ele sai....e ela sai acelerando o passo para não o perder na caminhada lenta.
Ela fala a uma conhecida e ele continua o caminhar de mãos atrás das costas, sedento que chegar a todo o lado que não aquele. Ela despede-se a correr e retoma-lhe o rasto na última calçada até casa.
Chegam, no mesmo silêncio em que partiram. Ela tira o casaco e de forma cuidada pendura-o no cabide da esperança, de voltarem ainda a sair. Veste o bibe, serve-lhe o almoço na mesa da cozinha enquanto ele pousa o jornal desportivo na cadeira de ninguém.
A conversa resume-se a temas gastronómicos próximos, deixando os talheres travarem diálogos repetidos e tão desinteressadamente atraentes.
Ela olha-o depois da derradeira colher de arroz doce esperando que diga algo diferente de:
- Vou ao café. Até logo.
A cadeira dele continua o diálogo previsível e arrastado, a porta da rua termina-o em ponto final.
Na cozinha a água passeia-se por pratos, talheres e panelas.
No regresso ao silêncio, ela vai ao quarto...despe a roupa e a fé de outra saída adiada...até ás proximas eleições.
Abre a janela, tira o canário do prego e põe a gaiola na cozinha.
Dá de beber ás plantas e recebe o sorriso florido de hoje. Liga o rádio da sala, apoia-se na almofada para os cotovelos no parapeito da janela grande e fica a ver quem passa, desejando noutro sorriso escondido, ser demoradamente levada pela mão...só até ao fim da rua.
Parágrafozinhos...inhos
Chegou a época balnear. As praias já estão vigiadas e cheias de alunos grandes de vestuário reduzido e pequeninos de chapéus coloridos. 226 praias ou zonas balnerares têem este ano a bandeira azul (mais 33 que em 2008). Sò não consigo entender como é que a tabaqueira é um dos apoios do projecto, bem como a vodafone na vertente praia saudável. Para o ano teremos a wiskas a patrocinar a máxima “ Venha á praia e traga o seu animal consigo”... ou mais interessante ainda...”Venha à praia e traga o animal que há em si”?
A campanha das europeias não fica atrás da tendência de calendário e sobe, sobe, sobe qual balão da Manuela, mas descalça formosa e tão nada segura.
375 milhões de vizinhos europeus podem votar para eleger 736 eurodeputados. Por cá o burguinho elege 22.
Figo deu a cara pelo voto. Cristiano disse que não ao voto recusando participar na campanha ao dever cívico europeu...e inverto-lhe o meu polegar. Votemos.
Os profissionais da PSP tem agora uma nova escolha associativa. Foi criada a associação gay daquele corpo policial. Os 3 fundadores dizem que foi criada de forma a sensibilizar os polícias para a descriminação de que são alvo. Fiquei sem perceber a notícia, talvez por a ter ouvido ao acordar e ainda rameloso. Mas se a memória a esta hora da manhã não me traí, penso que uma associação necessita de mais de 3 elementos para ser criada...creio. Chamem a polícia uou uou uou...
Azeite para barrar. È mesmo isso... vai saber a azeite cheirar a azeite vai manter todas as propriedades do azeite. Ainda este ano na mercearia da esquina.
Espero que seja um produto de patente registada e com espectativas optimistas de exportação.
“Mãããããããããeeeeeeeeeeeee quero uma carcaça com azeite e marmelada”
O aspirador redondinho e espertinho é carinho, custa o ordenado mínimo mais ¼.
Anda pela casa toda aspira o mais pequenininho dos pelinhos escondidinho debaixo de um sofázinho desde que não esteja num cantinho assim muito chegadinho ao ângulozinho.
Também serve para tirar o stress ao gato que farto de o tentar fintar o torna montada durante a tarefa. As fadas do lar vão adorar. E os eles delas também.
A crise chegou à monarquia. A rainha Sofia viajou numa companhia de baixo custo.
Bebeu um chá gelado e comeu uma sandes durante a viagem. Um dia destes a EasyJet cria uma classe ainda mais económica nos aviões. Poderá ser no andar de baixo junto ás malas , em que os passageiros pedalam para reduzir o consumo dos reactores. Uma iniciativa que poderá ter a cara da nossa Vanessa ou do Armstrong vestido de cor de rosa.
Vou ali, mas volto.
Story
Entraste num dia em que o Sol se impunha de mão dada pela brisa, naquele resto de Tejo a abraçar o oceano.
Quantas luas passaram, quantas cheias ou vazas marés, quantas vontades por provar, quantos amargos de boca morreram, quantos sonhos roubados, quanto tempo em viagem de ida sem projecto de volta, quanto de cada um deixou que o relógio parasse sem vontade de o acordar, quanto?... de tudo...
Perdi a conta ao que hoje voltou em forma de acordes e voz de outra memória de estrada para andar.
A primeira era “história”de fundo de telefone durante o chamar. E autobiográficamente, espelho de reflexos comuns.
Noutro momento e espaço longe das marés do estuário Lisboeta sem brisa nem abraço ouvi-a de novo num FM próximo.
De outra vez...de outras tantas vezes, fundo de publicidade de cinema sempre que as marés eram vazas
Noutra ainda quando na margem de outro rio o chá de limão odorava sorrisos de descoberta. E em tantos outros multiplicados momentos, de caminho sinuoso e lamaçento, de dias cinzentos.
O cenário musical de fundo repetido na probabilidade de diferentes começos de “história”, que deixei de contar, eternizou-me por dentro cada compasso... cada sílaba.. Gostei que essa brisa em jeito de pos-it me chegasse em tom audível que aprendi a deixar atravessar-me ou ficar... quase sempre ficar
Hoje, a mesma “historia” acordou-me fora de horas, em cenário sem vento, distante do mar.
Faço-lhe “história”... guardo-a junto a pedras de caminho e infinitos pedaços teus, no baú da memória selectiva... salpico de verde o negro e em esquisso de carreiro... rumo à estrada.
Rotunda

O Sol tinha-se retirado na previsível e universal divergência metereológica com a chuva, .
Ela chegou, como sempre, sem avisar caíndo de braço dado com a gravidade ... a molhar a última conquista de Rá, sugerindo a corrida para um abrigo seguro, afastado desse contágio de gotas obesamente indesejáveis.
Sempre que a chuva caí, torna-se exemplo primeiro onde o caír não lhe é doloroso e singular e deixa-se cair com ela aquele silêncio obstinado e audível.
A estrada torna-se mais lenta, as luzes mostram-se e ela sorri com aquele seu lado convencido por ter voltado a ganhar ao provocar o encolher dos outros.
Numa berma da rotunda vi-o sentado no rail desafiando a chuva deixando-a de ombros rendidos cair-se por ele. O carro teria capotado e voltado ao estado inicial semeando pela estrada infértil os restos daquele final de tarde indesejado, com sintomas graves e melhoras rápidas pouco optimistas.
Ficou-me a imagem de ambos, molhados, presos naquele silêncio indolente à espera que a chuva ou a página mudassem.
Antes fazer meia volta no final da recta vi a intermitência de luzes azuis aproximarem-se da rotunda e segui em frente.
Cheque ou numerário?
A hora de almoço serve para duas coisas. Almoçar e ir para a bicha do banco.
Depois os adeptos da segunda hipotese lamentam a demora dos serviços, não entendendo que os bancários também almoçam também vão a outros bancos tornando o pessoal reduzido no balcão, viciando-se todo o ciclo.
Comentários de bicha:
- Não sei porque é que mudei pra isto. Nunca vi, é sempre esta cegada... (Lamenta a senhora de avental, intensamente perfumada de fragrância marítima.)
- Querem é o graveto...parvo sou eu que, se não fosse o crédito, já tinha mudado( diz o último da anmada espera).
Estava lançado o mote.
Uma porta abre-se e de papeis na mão, a funcionária cola os olhares e protestos adiados dos esperantes em espera até se diluir a sua passagem na porta do fundo. Elas olharam-na de alto a baixo num silêncio de inveja, eles estáticos de aparência em exaltação interior.
- E outra vez à espera.
- Não percebo como é que não põem mais pessoal.
- Com tanta gente desempregada.
- Por acaso o Ronaldo deve ter mesmo conta neste banco deve.
- Esse não precisa de vir ao banco.
- É o banco que lá vai.
- A Londres?
- Onde for preciso.
- Eu até ía e tratava-lhe do dinheirnho.
- Até lhe pagam para andar aí a dizer que este é que é bom.
- Bom é ele.
- Se eu ganhasse como ele não me importava de esperar o dia todo.
- Nem eu.
- Eu nem esperava, comprava era o banco.
A funcionária faz o percurso inverso e o cenário repete-se...o silêncio a calar o diálogo cliente.
Outro funcionário aparece no segundo balcão:
- Próximo, pela ordem da fila por favor.
Fiquei a perceber que a noção de próximo nas bichas do banco em hora de almoço, é plural e se multiplica por 3, mas acaba sempre em bem. Afinal o “não custa tentar”, poderia ser uma estrofe do hino nacional.
Tornei-me adepto das bichas de banco à hora de almoço.

