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Passos...

Sempre que o tempo se engana de propósito apenas para confundir o que veste, ela troca-lhe as voltas. Por baixo do casaco comprido, vestiu de manhã, um tom verde vivo e justo denunciando-lhe as curvas.
Costumava passear pelo parque, demorar-se nas esplanadas, até que cada momento vivido a olhar os outros a fizesse mudar de lugar. Depois de roubar esse instante sem que ninguém percebesse sentia-se renovada. O gosto pela reacção invulgar dos outros eram puro prazer.
Ao descer a avenida, um piropo vindo de um banco vizinho, acertou-lhe em cheio. Retribui com um sorriso elevando o ego do emissor.
Ele, levantou-se e caminhou ao seu lado durante uns metros...ela não pareceu incomodar-se.
- Vai acompanhar-me até onde?
- Ao fim do mundo.. Posso?
- Pode. E consegue? Em silêncio?
- Andar é um prazer. Faço-o com regularidade.
Ela sorri de novo, mas por dentro.
E descem o Eduardo VII, Liberdade, Rossio, Nova do Almada, Arsenal...e no Cais do Sodré em ritmo igual , ele já menos seduzido pela persistência rítmica do seu andar:
- Vejo que também é uma amante da caminhada.
Ela responde com um sorriso, visível.
24 de Julho, 24 de Julho, 24 de Julho...:e ele fascinado com as curvas dela em movimento, mas menos com a recta interminável da avenida:
- O seu destino pode ser partilhado?
- Claro. O meu destino é um beijo.
Ele ganhou “energia” para chegar a Cascais...
Índia, Índia, Índia:
- Posso oferecer-lhe uma água? Não tem sede?
- Não. E você?
- Estou habituado e beber muita água sabe?
- Imagino. Desiste?
- Claro que não, mas preciso beber.
- Então desiste? Parar é desistir.
Ele sorri escondendo a derrota, de forma a que ela não percebesse.
- Acha que me consegue acompanhar até Carcavelos?
- Carcavelos?...
Ela aproxima-se dele, olha-o nos olhos e beija-o na boca, com um toque de lábios provocante, medalhado e vitorioso:
- Eu disse-lhe que o meu destino era um beijo. Perdeu...
Incapaz para resolver naquele instante o que faria a seguir... conseguiu apenas ficar a vê-la afastar-se ...

Rock in Rio Tejo



O Seixal como tantos outros cantos do Tejo comemorou os cravos numa noite fria de Abril deste 2009. Há muito tempo que não via tanta gente ensardinhada na rua frente a um palco. Fogo de artifício local e vizinho, porque a vista deixava. Pipocas, bifanas, balões, luzinhas de cores, empurranços, trambulhões, assobios, braços e copos no ar, cheiro a farturas adoçadas com risos e abraços de encontros.
O concerto começou e conseguimos chegar bem pertinho do palco, numa aventura de grupo em que alguns se perderam, nas esquinas de outros que não quiseram avançar.
Não me acho um resistente da época Punk dos Xutos, mas houve quem se fizesse notar por isso. Ao som de algumas do último CD ouviam-se protestos de companheiros de plateia tipo:
"Vão vender discos pró caralho...toquem xutos pá...", Pega no baixo e manda a puta da acústica fora ó Tim", "Romanticos de cagalhão"...
Mas os que nos 80 também passaram pelo RRV, voltavam a saltar e a esgotar a voz quando um tema cheirava mais a Xutos desse tempo.
Na foto tocava-se "Homem do Leme", do album "Cerco" de 86, um vinil marcante da banda. Lembro-me de ter juntado uns escudos durante uns dias para o comprar e não o emprestei a ninguém, tendo ganho alguns inimigos no circulo de amizades próximo.
Afinal em noites assim a malta cota quer é música, bjecas a acompanhar e muito "incenso" a rodar.

On the road...



Uma tarde quente de Fevereiro a sugerir neles o casaco no banco de trás do cabriolé e pelos óculos escuros o olhar aberto ao mundo da mini saia.
O trânsito afunilava no Marquês formando um acordeão poluente até às Amoreiras.
Morena encaracolada, de cigarro compridinho a pingar quase em prolongamento gémeo das unhas de gel, olhar distante a adivinhar-se por detrás dos óculos astronauticos um pouco acima dos lábios pintados em bordeaux acastanhado, a falar em mãos livres dentro do seu SLK preto reluzente.
Avançando quase lado a lado num bailado urbano pediu-me passagem para ganhar alguns lugares e acedi ao pedido. Uns metros mais à frente e talvez outra chamada voltou ao lado direito inicial. Voltámos a estar lado a lado e trocámos o olhar com o seu encolher de ombros em jeito moreno de desculpa por não te resultado a manobra anterior. O carro da frente tentou passar para a fila da esquerda e ela não hesitou...decidida e despachada guinou para a direita subindo o passeio não fosse o condutor desistente ficar por ali tempo inconveniente á sua pressa. Rodinhas de metade do Mercedes no passeio e ainda por cima ao Sol em situação engarrafada não são tarefa fácil, até porque o cabelo iria ficar oleoso de tanta invasão da mãozinha esquerda e o telemovel já deveria ter feito naquele espaço todas as chamadas possíveis com o propósito de coisa nenhuma... ela decide cabriolar o carrinho. Claro que todos os que já tiveram o rabinho dentro de um SLK da primeira versão sabem que a tarefa é impossivel com o pópózinho desnivelado. O trânsito tinha ficado espectador involuntário e imóvel daquela curta metragem deliciosa.
A morena bem carregava no botão mas a capota recusava obedecer.
E a cada segundo o botão era massacrado violentamente, por parte da sua unha de gel e pontinha de dedo frustrado. No que uma mulher se pode tornar frente a um tejadilho teimoso. Escuso-me a repetir o que ouvi...garantindo que a Inquisição teria sido um colégio de freiiras frente á fúria verbal da menina astronautica.. Ela abriu a porta e antes se deslocar ao capot... decidi facilitar-lhe o resto da tarde.
- Desculpe!
- Sim diga! (Disse-me em tom meio de acordo com a fúria verbal anterior)
- Experimente voltar a por as rodas fora do passeio e vai ver que resulta.
- Não percebo ( Desta vez já mais de acordo com o estilo moreno)
- Os SLK como o seu só abrem a capota se estiverem numa superficie plana.Experimente descer as rodas do passeio.
- Haaaaaaaa, e não se importa de me ajudar? ( Agora em tom sensual)
- Penso que para descer as rodas do passeio não vai precisar da minha ajuda...
Pressionou o capot e voltou para dentro do carro.
O transito avançou mais uns metros ela desceu as rodinhas para o alcatrão e continuámos a par até uma nova paragem.
O dedinho da unha de gel voltou a pressionar o botão e Salomão abriu-lhe o tejadilho como que por milagre.
Voltou a cara para o meu lado quase ao ralenti em jeito de anuncio L'Oreal com os cabelos a acompanharem e levantarem pela força centrifuga a uma velocidade estonteante de câmara lenta... esboçando o seu melhor sorriso corado e as mãos juntas em agradecimento verbal.
Eu afastei as minhas em simpatia com um encolher de ombros sorridente.
Ela reforçou o agradecimento com um beijo soprado e glamouroso.
Aproveitei a brisa e pedi-lhe licença para me meter na frente e voltar á direita.
Deu-me passagem em jeito de vénia e mãozinha a acenar.
Retribuí taambém de mãozinha no ar enquanto ela repetia o gesto no meu retrovisor.
A minha teoria de que só loiras guiavam SLK tornava-se obsoleta naquele instante.

Sussurros I


Num daqueles silêncios repentinos, como se todos os outros sentidos batessem o pé recusando-se continuar...reconheci-lhe o andar na calçada polida. A porta da entrada saudando-a baixinho e tímida … a outra num ruído repetido de abrir e fechar quando não houve correio …o primeiro lance de escada com o ultimo degrau a ranger… uma réstia perfumada de Lempicka sempre a teimar chegar-me ao nariz … o ritual a cumprir-se …os dois “taques” do corrimão orgulhoso em protegê-la dos saltos de segunda a sexta…e outro lance...o único momento em que lhe perco o rasto…mas que adivinho logo a seguir… chocalhando a mala até encontrar o molho de chaves…a porta que se abre e faz por simpatia mexer a do meu prmeiro andar quando volta a fechar.
Os passos dela, agora descalços, no andar de cima. A água a correr…a música a tocar após outra pausa invulgar…CD ou rádio?
Sorri…era o disco de que lhe falei, no meio de um bom dia cruzado de pastel de Belém na mão a caminho de casa… seria a curiosidade insuportável? Gostei de a imaginar comprar o que lhe sugeri, apesar de me ter dito que só ouvia World e Chill.
Levantou o volume…imagino-a a olhar para a capa do disco folheando o interior a caminho do banho...Confirmei…e também que não fechou a porta…estranho.
Continuei a olhar o rio naquele quase final de tarde de Março agradavelmente contagiado pelos graves que me invadiam acusticamente a sala.
Ela ainda na banheira…o telefone…que mais uma vez não atende. Já sem musica, daí a outro tanto de tempo é denunciada pela água a escorregar-se por ela até se misturar com as ondas da banheira..Os passos até ao outro lado da sala num vestir de roupão…senti-a abrir a janela para aquele primeiro gesto nesta Primavera...afastar energicamente dos cabelos longos qualquer vestígio de água …vejo gotas caírem-me na varanda ….Acendeu a fósforo um cigarro... perdeu-se no olhar o Tejo...e fez o Jamie bisar depois de se deitar no hamac de canto.
“What a Difference a Day Made” ?

Interruptores



Faltou a luz. Apesar do século XXI ter vindo para ficar outro tanto como o anterior, o facto é que quando ela se vai nunca me avisa. Apetece-lhe e pronto. Não há previsão nem data para os seus períodos de ausência.
No escuro e durante um eterno lapso de tempo...porque sem luz não há relógio para o medir e não me apeteceu levantar e ir pedir informação ao télémóvel...fiquei num pensamento provocado.
A memória foi direitinha a um gesto temporalmente tão distante que nem sei como lá chegou tão depressa. A luz também tinha faltado e a primeira frase que relembro foi:
- Deve ter sido a lâmpada. Acende outro interruptor ( porque o acto bricoleiro de mudar uma lâmpada não era banal nessa altura – fato de macaco, escadote e caixa de ferramentas eram adereços obrigatórios nesse gesto forçosamente profissional e claro, contratado).
A provar que a culpa primeira seria sempre da casa. Acho que pôr o estado em causa, naquela altura a Empresa Pública de Gás e Electricidade ( se a memória também não se apagou entretanto), seria quase sacrilégio punido com penitência vitalícia. E então lá se tiravam as dúvidas com dois ou três cliques e fricções enferrujadas dos interruptores de cobre ou porcelana, que me davam um gozo enorme mexer invadido pelo vício do meu psicadelismo infantil. Era uma atracção fatal. Hoje eu teria sido um interruptorodependente reincidente e condenado. Talvez modelo de tese sobre o efeito dos interruptores de parede na evolução cognitiva da criança.
E os tais cliques de que me lembro assim, nas casas da família que frequentava, resumiam-se aos interruptores tão desejados, aos cinco ou seis dos rádios a válvulas, a outros tantos do televisor (na altura masculino) e ao botão de pressão das campainhas das portas de entrada. Ou seja uma vintena de botões todos com som próprio e caracteristico.

E eis que a luz voltou...e se reacenderam leds e o frigorifico sussurou e o micro ondas bipou e outros bips vários se fizeram ouvir e a box reiniciou e o LCD voltou a mostrar-me o mundo e o computador se reacendeu e o telefone avisou e a normalidade impaciente voltou ao batimento cardiaco normal e os candeeiros da rua voltaram a iluminar quem passa....
Olhei para o lado esquerdo e contei os botões sem clique de dois comandos que toco apenas com um dedo e me mudam o mundo todos os dias...92.
E se um dia a luz não voltar?

Newton Faulkner - All I Got


Um tema fantástico em som West Coast. Consegui finalmente plagiar o link. Gostooooooo ... e tu?

Fado triste


A tarde tinha entrado em temperatura descendente. O benfiquista denunciado pelo boné é também adepto de pescaria de rio e fado.
Estes traços podem completar-se com outros que vêm por acréscimo, na lógica marialvista.
A sandes de chouriço, denunciada pelo vento, a mini, foram matabicho lanchado.
E porque todo o ele que se preze não micta em qualquer lado, vi-o rondar a vedação vizinha na busca de um buraco na rede, que até lá estava escondido, entre uma arvore que cresceu por entre os buracos de arame.
Uns instantes depois, lá o vi voltar ao lado de cá da vedação. Vnha com uma das mãos, escondida atrás das costas.
Ao chegar ao pé da carrinha bateu devagarinho com a outra mão no vidro e reparei que estava uma senhora no banco da frente, escondida, talvez cúmplice da sesta. Levantou a cabeça e sem sequer abrir o vidro, num gesto frio disse que não com a cabeça, reforçou o gesto com a mão e voltou a desaparecer.
Ele ficou um instante com o ramo de flores silvestres amarelas estendido e acabou por o pendurar friamente em jeito de protesto passivo no retrovisor da carrinha.
Não resisti a dar uso ao tlm para uma foto, onde se pode ver o ramo pendurado no retrovisor do pendura.
Virou costas e trocou a ternura falhada pela cana de pesca e o prazer do último resto da mini.
O mexer da ponta da cana trouxe alguma emoção ao momento e um peixe gordo ofereceu-lhe talvez o derradeiro sorriso daquele dia. Arrumou tudo e foram-se embora. Na inversão de marcha, o ramo caíu na berma e com ele aquele “fado” florido, talvez raro e sorridente, que se perdeu na intenção do pescador benfiquista.

Lua de Março


Escrever de manhã sobre um foto nocturna é como cruzar os braços e falar de uma actividade stressante ao som de música Zen com um travo absintico e já agora com o ambiente fumado a erva...que até pode ser doce.
A foto aconteceu porque os elementos estavam todos lá e passaram-me pelos olhos numa panorâmica magalómana de 12º andar.
A Torre Vasco da Gama em tom de azul interpretando o papel secundário de um farol urbano, a Lua a confessar que o próximo dia seria de calor e a fila ordenada de luzes da segunda ponte do Tejo a separar o rio da outra margem no enquadramento luminoso e multicolor.
Não fosse a máquina da Fátima e teria perdido aquele instante. Por entre convivas e copos e conversas trocadas e doces e salgados e risos ...um clic roubado a um instante da uma noite...sinto-me ladrão, com um proveito saboroso de há muito tempo não “roubar” assim.
Curiosa é também a data ...há seis anos atrás eternizei um por do Sol a sul e tomei pela primeira vez um banho de Março com sabor quase mediterrânico a sugerir beijos de Lua.
A Primavera a cada ano mais precoce não deixa nunca de me surpreender.
As andorinhas estão quase aí e eu... quero outras noites assim.
Clic...

Janela



Uma janela, de sala de espera de consultório, virada para a rua. Um bairro modesto de calçada antiga, lojas pequenas e mercearias com fruta reluzente e cuidadosamente empilhada, prontinha para se trincar.
Cãezinhos pela trela e tertúlias de ocasião a darem o toque final a um cenário cada vez mais raro do calendário XXI, onde ainda se vêm frequentadores de praças municipais onde o tempo parece ter mais horas que nos centros comerciais.
Um homem, idade avançada, passo ligeiro, cumprimenta com um levantar de chapéu em quase vénia uma conhecida ficando os dois ali a falar alegremente a julgar pelos sorrisos. Despede-se com o mesmo gesto delicado e cavalheiresco. Uns metros mais à frente repete o gesto para outra senhora esta de mais idade. Ajuda depois uma mãe a desdobrar o carrinho de bébé. E antes de dobrar, desta vez, a esquina, até quase me fazer esborrachar o nariz no vidro para acompanhar aquela fatia da sua caminhada matinal, ainda o vi apanhar algo do chão e entregar à senhora que pendurava os jornais na porta da papelaria.

Apetece-me um dia, uma vila em que o tempo passe assim com aquela pressa vagarosa onde o vento tenha preguiça de soprar, onde o sol se demore mais a cada dia e o silêncio se retrate nas casas brancas de piso térreo com telhados de barro antigo.

Alguém abriu a janela e deixou que o som da rua me apagasse a imagem da vila branca. Olhei para o relogio digital, mesmo ao lado de um plasma enorme que prendia a atenção dos “esperantes”numa das paredes da sala e vi que afinal o tempo avançava da mesma maneira.
Uma voz suave e simpática repetiu-me o nome e segui-a para outro cenário.

Vistas e revistas



Aqui no cantinho da biblioteca descartável onde as revistas nunca se vendem, apenas se consultam, se desfolham, se retorcem nas pontas das páginas e se enchem de saliva pelos dedos dos leitores de supermercado, chegam mais dois ensalivadores para um "revistar" contente de hora de almoço.
Aproximam-se decididos. Penso que o alvo são os carros desportivos ou na melhor das hipoteses a última edição de uma revista de gajo, com menina encalorada na capa. Mas não. A mãozinha decidida de um dos leitores pára na ponta da prateleira mesmo ali ao lado da imprensa colorida e do ponto cruz. Cor de rosa? uma revista cor de rosa nas mãos de um gajo, ou quase dois. Porque ao abrir, o outro segurou também não fosse o peso ser demasiado para o primeiro:
- Vês vês? Como a gaja sempre casou com ele?
- Então mas eu disse-te, pá.
- Porra mas o gajo é feio...com uma gaja destas...
- Mas deve ter guito...o que é que estás à espera.
Mais umas folhas, e mais um molhar de dedinhos, e mais fotos adiante:
- É pá esta Luciana ficou com umas mamas... olha-me pra isto (assobio).
Comenta o primeiro enquanto afasta a revista até ao limite dos braçinhos para a contemplação total.
- E morena ainda fica mais tesuda. O Ronaldo é que já lhe deve ter marcado uns golos valentes.
- És parvo pá, o Ronaldo não quer nada com a gaja.
- A mãe dele é que a queria para nora.
- Olha a festa do maricon...
- Paneleirote mas é só gajas boas olha lá. Tudo transparente, o que ela precisa sei eu.
- Foi esta que casou com o tal gajo que era médico.
- Não casou nada ...viveram juntos mas pouco tempo, agora está com aquele gajo das novelas. A mulher dele era aquela...que escreve.
E num virar de página virei de corredor.
Sempre achei que este tipo de comentários eram próprio mais delas, acompanhados do cruzar braçinhos com o obrigatório segurar do queixo na palma da mão deixando a boca entre o mindinho e o anelar...mas vi que não.
Será que andei alheio às tendências literárias mais recentes?
Então mas eles já não lêm a plaboy? Só vêm os programas da Julia Pinheiro e da Fátima Lopes? Será que regam os almoços com a Maya e os comentários do Goucha?
Será que estou a entrar na andropausa intelectual e não dei por isso? Passo pelo corredor do pronto a vestir e olho-me bem ao espelho...ao perto, ao longe e ao meio. Já se notam cabelos brancos...monteeeeeeeeees deles, as rugas começam a medrar... é o príncipio do fim...amanhã vou ao médico pedir um exame á próstata. E por via das dúvidas vou comprar a Playboy e a Penthouse e aderir aos canais X por cabo e satélite e já agora tornar-me sócio de um videoclube.
As compras não me estão a correr nada bem hoje. Será que haverá por aqui chá de cidreira?

Rabiscos de final de tarde




A caneta tinha pó. Daquele que aparece, nunca entendo de onde. Estava por baixo de um dos bancos do carro. Tinham-ma dado há não sei quantos anos. Tantos que a tinha esquecido. Até que nem sou perito em perder canetas. O "Era uma vez" da história aconteceu apenas porque a encontrei abandonada, esquecida, deslavada... e incapaz de voltar a cumprir a sua função(achei ao primeiro olhar). Comecei a rabiscar - num papel, tal como ela, esquecido, junto a várias coisas que se vão acumulando dentro de um qualquer carro, adiando teimosamente a hora do lixo - afinal ela acabou por ceder ao fim de alguma persistência com um abstratismo em intervalos de azul.
Os rabiscos tornaram-se letras a procurar espaço no que restava da folha.
Um cão luta discretamente e em silêncio contra uma tampa de caixote. Dois adolescentes abandonam-se de mãos dadas nos lábios um do outro. Ciclistas em final de passeio deixam para trás o cansaço voluntário. As gaivotas já poisaram. A esplanada fica cada vez mais cheia de cadeiras vazias. As luzes acendem-se, nos candeeiros de rua e nos carros em passeio de fim de semana. Lá em baixo na praia alguns resistentes ainda jogam à bola. Um puto faz uma birra ao entrar para a carrinha do lado. Uma ambulância quebrou-me o silêncio da caneta e também assustou o Sol. Um último surfista arruma as ondas na mala do carro. As letras ficam a cada linha mais pequenas até quase ser preciso lupa para ler...fiquei sem espaço.
O rádio tocava Cabrel e como na canção, este foi também outro "sábado na terra".

Final de estação

O comboio começou lentamente a carrilar. Sem apito nem vapor...mas a imaginação pode sempre, quase tudo.
Sol e céu azul trouxeram-me à memória esta música de verão, enquanto a paisagem mudava a cada compasso. Sabores reggae e soft beat deram à curta viagem um gosto réstio de final de estação.
Thanks Mrs. Mraz

"Achados e perdidos"


Alguns, muitos, anos depois da "125 azul" outra voz e outro tempo, noutra estrada, fiquei preso a este tema da Mafalda. Voz de palavras simples com acordes claros.
Achamos nos caminhos que se cruzam,por vezes, tudo que um dia podemos perder.
Achar, perder...Perder a tentar achar.

Cantiga de amor...


Um disco que tive curiosidade de ouvir...gostei de duas ou três.
Lembro-me neste dia da memória de os ver no RRV lá pelo meio dos 80.
Não gostei do video, em jeito vintage. Mas fica o tema em registo.
O amanhã continua a ser longe demais. Fica a certeza de podermos sempre pintar o mundo de outra côr.

Vento sul...


A estrada acabou para sul...o caminho perdeu-se...a tarde quase adormeceu...
O por do sol não era de Sagres, a cerveja não tinha alcool mas sabia a limão...e o tempo, é sempre que eu quiser.

Baía sem Luar


O vento cortava pela primeira vez neste Outono. O agasalho de inverno separava-me do frio. Num café vizinho, despovoado, tocava este tema. Sentei-me no muro de pedra por um instante, entre o som e o resto de ondas que a baía trazia. A Lua andava por lá mas escondida. Tentei que viesse mas não apareceu.

Bió.. quê?

“Espaço 1999”, lembras-te ?
Parece que foi ontem que me perdia de mão dada com o
pensamento imaginário tentado-me Nostradamus a
adivinhar onde estaria em 1999... Cenários lunares ou
mesmo marcianos não se me afiguravam assim tão
ficcção quanto isso. E a teletransportação? E as armas de
raios laser? E todos os botões a piscar naquelas consolas
espaciais? E as “águias” que ao descolar até deitavam
fumo?
Entretanto foi “A guerra das estrelas” a primeira loja do
Macdonalds e as maravilhas de primeiro mundo que
entretanto fomos importando.
E eis que hoje ao acordar oiço o homem da rádio falar
que pela primeira vez se tinha implantado uma mão
biónica em Portugal. Assim sem mais nem menos e sem
me avisarem. Sim porque isto não é notícia para o acordar
de qualquer mortal da geração“ Espaço 1999”.
E lá levantou voo o pensamento de novo e eu sem reflexos
para o conseguir agarrar.
A primeira mão biónica foi hoje. Dentro de mais uns anos
será a possibilidade de termos todos os membros
bionizados. Prevejo que o mundo poderá ser muito mais
eficaz. Políticos com implantes biónicos incluindo o
cérebro claro. O monopólio dos fabricantes de Viagra e
mais uma dúzia de genéricos similares a perder-se no
fundo das cotações bolsistas. E a vida últil laboral a
terminar aos 253 anos de produtividade efectiva.
Entretanto o número de divorcios será quase nulo porque
cada feliz habitante do planeta, que na altura dificilmente
será ainda azul, terá para uso privado e globalizante um
Tamagoshi biónico e transformável, ao gosto de cada um.
Todo o infinito resto, deixo-te imaginar...
Por agora o sumo de laranja não se faz sózinho e tenho
que ir ao poço buscar água porque o chuveiro de folha
não sai do prego da parede e se enche por vontade minha.

Arrumava velhos discos de vinil e notas em papeis soltos dentro de um saco enorme. Fez-me a passagem de antena e trocámos algumas palavras. Os anos noventa tinham começado por essa altura. Habituámo-nos a esse ritual durante um tempo...pouco importa quanto. O Rogério era a voz maior da estação. Foi ele de resto "o pai" dessa rádio que uns anos antes tinha conquistado um espaço por direito próprio no éter da cidade luz. A voz era rouca, segura, pausada. Os seus poemas surgiam pelo meio de músicas e pensamentos, onde Amália e o fado tinham sempre lugar cativo. Umas das memórias que me ficaram desse tempo eram desenhos soltos, feitos durante cada programa e abandonados no cesto dos papeis, que me habituei desamarrotar a cada vez que me sentava para mais um programa. Alguns anos depois os caminhos afastaram-se. Passaram mais uns anos, não sei quantos, mas amizade perdurou. O Rogério do Carmo escritor, caricaturista, vernáculo, "je m'en fous", polémico, espontaneo, editou mais um livro de poemas. O livro chama-se "Vagas"... lanço ao mar virtual um registo do poeta e amigo. Um abraço Rogério.

...E assim, de repente, passaram vinte anos.


O tempo que ficou atrás das costas parece ter passado mais depressa que este do presente recente. Se todo o tempo falasse sobre o tempo que demora a passar talvez as memórias não tivessem razão de existir.

O Sol ainda se escondia tímido atrás dos prédios e o dia começava como todos os outros, não fosse algum cheiro a incêndio e um ou outro pequeno pedaço de papel a esvoaçar. A curiosidade levou-me a seguir um até o apanhar. Apercebi-me que era um resto de factura queimada quase por completo.
Os carros estavam ligeiramente cobertos por cinza fina.
A caminho de Lisboa vi o fumo e pela rádio fiquei a saber que o Chiado ardia.
Relembro o antes do fogo e o que vivi nesse dia em que não resisti a piorar esse sentimento de perder uma referência de infância, de adolescente e de adulto, ao ir ao local do fogo.
Acho que em todas as memórias temos um cantinho do velho Chiado.
Lisboa nunca mais foi sombria naquela zona... o charme dos edifícios sujos, os pedintes nas calçadas, os carteiristas da baixa, os pregões que ainda relembro, as senhoras a escorregar num ou noutra calçada menos aderente, Valentim de Carvalho, a Custodio Cardoso Pereira, o cheiro a pano dos armazens Grandels, tudo ficou só mesmo na memória que visito sempre que me apetece.
Este Chiado é fresco, é novinho, é simpático, até colorido, mas sem história. Terá outros prós que outro tempo tornou prioridade.

...E assim, de repente, passaram vinte anos.

Comadre Lídia

Segunda-feira, 12,34 h...

O toque dos telefones antigos eram muito mais fácil de definir que o dos novos .
Como é que eu defino o toque alternado de uma melodia monofónica? Claro que é indefinível...adiante.
Imaginemos que é um Triiiiiiiiiiiiiiiim
- Tou!
Silêncio de uns três segundos que em espera telefónica se parecem com uma época glaciar.
- É a comadre Lídia ( em sotaque alentejano ).
- Não não é engano.
Outro silêncio eterno de mais uns dois segundos.
- Comadre Lídia???
- Minha senhora já lhe disse que é engano...
- Tou?
- É engano minha senhora.
- É de casa da comadre Lídia?
- Não não é de casa da comadre Lídia.
- Ahhhh. Pode chamar a comadre Lídia por favor?
- Minha senhora já lhe disse que aqui não há nenhuma comadre Lídia.
- Então pode chamá-la se faz favor?
- Já lhe disse que aqui não mora nenhuma Lídia...a senhora enganou-se no número.
- O senhor desculpe mas eu liguei o número que ela me deu o mês passado quando cá esteve e disse-me para ligar, é que ela hoje faz anos sabe?. Porque é que o
senhor me diz que não pode chamar a comadre Lídia?
- Minha senhora porque aqui não mora nenhuma comadre Lídia. O número deve estar errado.Boa tarde.
- O senhor desculpe mas não me pode dizer qual será o número dela?
O silêncio foi meu...devem ter passado uns cinco segundos.
- Não minha senhora eu nao sei o número da comadre Lídia porque não conheço nenhuma Lídia.
- Ahhhh. Então anganei-me foi o que foi. Queira desculpar.

Ainda é Agosto estão 28 º lá fora e amanhã é terça.